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Mostrando postagens com o rótulo Sociedade em decomposição

15 milhões de dólares esperando por mim. Só faltou combinar com a realidade

Hoje eu abri meu e-mail e encontrei uma mensagem que, sinceramente, me fez pensar por alguns segundos: “Será que alguém realmente acredita nisso?” A mensagem vinha de um suposto gerente de contas de um banco de investimentos em Burkina Faso. Segundo ele, existia uma conta pertencente a um cliente antigo que teria morrido durante os acontecimentos de 11 de setembro de 2001. Até aí, você já começa a levantar uma sobrancelha. Mas calma que fica melhor. Segundo a mensagem, havia nada menos que 15,8 milhões de dólares nessa conta. E aparentemente eu fui escolhida para participar dessa história financeira digna de roteiro de filme. A proposta? Uma divisão muito conveniente: 40% para mim, 50% para o remetente e os outros 10% para alguma finalidade que, sinceramente, eu nem cheguei a entender direito. Tudo isso mediante a minha “cooperação honesta”. Honesta. Porque aparentemente o que estava faltando para resolver uma fortuna de milhões de dólares era justamente a minha honestidade. 😂 Agora ...

Quando a Justiça demora, quem paga a conta?

 Existe uma frase muito conhecida no Direito que diz: "Justiça tardia é injustiça." Confesso que, ultimamente, ela tem feito cada vez mais sentido para mim. Daqui a poucas semanas, meu processo trabalhista completará um ano. A audiência aconteceu. A decisão foi favorável. Toda a documentação necessária já foi apresentada. O processo encerrou normalmente. E, ainda assim, continuo aguardando uma sentença para a próxima etapa. Receber meu dinheiro! Quem acompanha o blog sabe que já contei algumas partes dessa história. Depois de dois anos dedicados à empresa, desenvolvi problemas de saúde relacionados ao trabalho e acabei sendo desligada. Também relatei aqui as dificuldades que enfrentei com a condução do processo e os transtornos causados por uma situação envolvendo a advogada que representava meu caso.  Já contei aqui como uma situação envolvendo a condução do processo aumentou ainda mais esse desgaste. (Leia o relato completo aqui.) Tudo isso já gerou desgaste suf...

O serviço termina quando o cliente vai embora?

Hoje eu estava fazendo uma das tarefas mais glamourosas da vida adulta: tirando roupa do varal. E, do nada, me veio uma lembrança de quando eu tinha uns 15 anos. A primeira vez que fiz progressiva no cabelo. Quem viveu os anos 2000 provavelmente vai entender a empolgação. Naquela época, cabelo liso era praticamente um sonho nacional. Eu, que sempre tive muito cabelo — e continuo tendo — sonhava em sair do salão com aquele efeito escorrido de comercial de shampoo. Antes disso, meu método de alisamento era outro. Eu e minha mãe fazíamos exatamente como muitas famílias faziam naquela época: usávamos o ferro de passar roupa. Sim, você leu certo. Hoje parece absurdo, mas naquela época era relativamente comum ouvir histórias assim. Quando finalmente consegui fazer a tão sonhada progressiva, minha tia indicou a cabeleireira de confiança dela, em Santo André. Fui com minha mãe. Fui muito bem atendida. O procedimento foi feito normalmente e saí do salão feliz da vida. Poucos dias dep...

A fila invisível da saúde pública

Quem depende do sistema público de saúde aprende uma coisa muito rápido: além de paciência, é preciso ter tempo. Muito tempo. Recentemente, minha esposa precisou realizar uma endoscopia. Depois de um período de espera, finalmente veio o agendamento. Até aí, tudo certo. O que chamou minha atenção foi o local e o horário. Ela foi encaminhada para realizar o exame na Brasilândia, um bairro onde nunca havia estado, com apresentação marcada para 1 hora da manhã . Confesso que nunca tinha visto algo parecido. Não estou questionando a qualidade do atendimento nem dos profissionais de saúde — que, muitas vezes, fazem verdadeiros milagres com a estrutura que têm. A minha reflexão é outra. Será que faz sentido uma pessoa precisar atravessar a cidade durante a madrugada para realizar um exame que exige sedação? Para quem conhece a região, talvez seja tranquilo. Mas imagine alguém que nunca esteve naquele lugar. Imagine quem depende de transporte público. Imagine uma mulher indo sozi...

Quando a tecnologia avança mais rápido que os idosos

Outro dia me peguei pensando em como envelhecer no Brasil exige coragem. Não apenas pelos problemas de saúde, pela aposentadoria apertada ou pela solidão que muitos enfrentam. Mas porque parece que, a cada ano, surgem novas formas de convencer idosos a gastar dinheiro que eles nem deveriam gastar. Meu sogro é aposentado e recebe, há muitos anos, a pensão deixada pela esposa. Infelizmente, durante boa parte da vida, foi uma pessoa boa até demais. Daquelas que tiram da própria boca para ajudar os outros. O problema é que nem todo mundo merece essa confiança. Ao longo dos anos, ele acabou acumulando dores de cabeça que poderiam ter sido evitadas. Uma delas foi quando aceitou financiar um celular em seu nome para um sobrinho. Parcelado. No boleto. O aparelho não durou nem dois meses. Segundo ele, o sobrinho acabou perdendo o celular por envolvimento com drogas. O telefone desapareceu. As parcelas continuaram chegando. Quem já ajudou alguém dessa forma sabe como termina essa ...

O espetáculo das taxas: quando o ingresso é só o começo da conta

Recentemente resolvi pesquisar dois ingressos para o show de Roberto Carlos. Nada extravagante. Apenas dois lugares para aproveitar uma noite diferente, ouvir músicas que atravessaram gerações e fazer algo que todo ser humano deveria conseguir fazer de vez em quando: viver um pouco além da rotina de trabalho, boletos e responsabilidades. Mas bastou chegar à etapa final da compra para levar aquele susto que já está virando tradição nacional. O valor dos ingressos já não era exatamente barato. Até aí, tudo bem. Grandes artistas, grandes eventos, produção, equipe, estrutura... ninguém espera pagar o preço de uma coxinha para assistir a um show. O problema começa quando o valor anunciado parece apenas um convite para uma segunda rodada de cobranças. De repente surgem taxas. Taxa de conveniência. Taxa de serviço. Taxa de processamento. Taxa disso. Taxa daquilo. E, curiosamente, mesmo somando tudo o que aparece detalhado na tela, o valor final ainda parece fazer uma matemática própr...

O patriotismo de fachada e o lixo da realidade

Hoje liguei a televisão e estava passando uma série que assisto vez ou outra.  Em um dos episódios, o personagem principal foi chamado para trabalhar como segurança da filha de um homem poderoso. Até aí, nada demais. Mas teve uma fala que me chamou atenção. O rapaz perguntou: — “Ela já não tem segurança?” E o homem respondeu que a empresa responsável era brasileira… e que brasileiros eram suscetíveis à corrupção e à venda de informações para a mídia. Pesado, né? E pior que, infelizmente, certas situações fazem a gente entender de onde vem essa fama. Porque cada vez mais o brasileiro lá fora é visto com desconfiança — e não é por acaso. Claro que não dá para generalizar um país inteiro, mas também não dá para fingir que a cultura do “cada um por si” virou algo normalizado por aqui. E sinceramente? Isso começa justamente em quem deveria dar exemplo. Os políticos aparecem em época de eleição prometendo cuidado, organização, melhorias… mas basta passar a votação que o abandono v...

O mercado da mediocridade confortável

Existe algo que sempre me impressiona: a quantidade de pessoas que se acomodam no mínimo esforço possível —  e pior, ainda acham normal. Não é nem sobre ser perfeito. É sobre ter vontade de aprender, evoluir e aproveitar oportunidades quando elas aparecem. Esses dias fui conversar com uma cabeleireira aqui da rua para saber se ela fazia penteados para casamento. Nada absurdo. Mas, antes mesmo de eu mostrar direito o que queria, ela já soltou: — “Faço… mas trança não.” Na hora eu pensei: uau. Que segurança é essa em limitar o próprio trabalho antes mesmo de ouvir o cliente? E detalhe: um dos penteados que eu tinha salvo realmente tinha trança. Mas nem era algo impossível, daqueles penteados cinematográficos dignos de tapete vermelho. Era algo comum, bonito, totalmente aprendível. Coisa que hoje qualquer profissional consegue estudar em vídeo, curso, prática, internet… se quiser. Mas talvez aí esteja o problema: muita gente simplesmente não quer. Expliquei que ainda estava pes...

Pet friendly ou pet tolerado mediante taxa?

 Pesquisando uma pousada para tirar uns dias de descanso merecido em casal — mas claro, que aceite pet —  comecei a ver as opções de ida de avião ou carro. E vamos combinar: infelizmente as companhias aéreas fazem de tudo para dificultar a ida do seu bichinho junto com você. Fui ver todas as possibilidades, toda a papelada necessária… e mesmo assim, se o seu pet não couber embaixo do banco da frente — que, vamos lá né, mal cabe a gente, quem dirá um ser vivo naquele cubículo — querem empurrar o animal como carga. CARGA. Como se fosse uma mala despachada. Uma vergonha. Quem foi o imbecil que pensou nisso? E quem foi o outro que autorizou? Apêndice necessário (porque a realidade às vezes consegue ser pior que a ironia): Não faz muito tempo que circulou a notícia de um cachorro transportado na carga da Latam que morreu após o voo. Um ser vivo tratado como objeto logístico. E depois vêm as notas oficiais, os “lamentamos o ocorrido” e os protocolos que “serão revisados”. Mas a p...

Entre receitas sem assinatura e agendas inexistentes: o caos silencioso do atendimento público

Duas semanas sem ir à academia. Tudo por conta de uma mini cirurgia. Mini mesmo. Mas o terrorismo psicológico materno foi tão convincente que obedeci rigorosamente: nada de esforço, nada de peso, nada de inventar moda, nada de “já estou bem”. Resultado? O corpo parado. A mente inquieta. E aquela culpa clássica de quem treina e começa a sentir que o sedentarismo de quinze dias já virou aposentadoria física. Mas hoje finalmente voltei. E como o universo claramente trabalha com roteiros irônicos, meu remédio acabou justamente no fim de semana. Pensei: “Sem problemas. Pós-treino passo no posto, pego receita nova e sigo a vida.” Ingenuidade minha. O paciente precisa ser pontual. O sistema nunca. Cheguei no posto de saúde e a atendente, com a serenidade de quem anuncia previsão do tempo, me informou: — “Volta às 14h para passar com a médica nova.” Nova médica. Nova receita. Nova esperança. Voltei no horário. Ou melhor: antes do horário, porque o paciente sempre pre...

A pressa virou desculpa para falta de educação?

Há filas que ensinam paciência. E há filas que ensinam exatamente o contrário: a arte moderna de empurrar a dignidade alheia como se o próximo fosse apenas um detalhe descartável do caminho. Hoje observei uma cena simples. Dessas tão comuns que talvez justamente por isso tenham deixado de chocar as pessoas. Uma senhora, carregando sacolas pesadas, aguardava sua vez calmamente na fila. Quietinha. Sem reclamar. Sem suspirar alto para chamar atenção. Sem aquele teatro moderno de quem quer mostrar ao mundo o quanto está “ocupado”. Ela apenas esperava. Ao lado dela, um homem de fone nos ouvidos parecia viver numa dimensão própria — uma espécie de universo paralelo onde o restante da humanidade serve apenas como obstáculo para a sua pressa. Olhou a fila. Mediu o espaço. Esticou o braço. E soltou a clássica frase dos inconvenientes profissionais: — “É rapidinho.” Interessante como “rapidinho” virou autorização social para desrespeitar os outros. Porque nunca é só sobre passar na f...