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Quando a tecnologia avança mais rápido que os idosos

Outro dia me peguei pensando em como envelhecer no Brasil exige coragem.

Não apenas pelos problemas de saúde, pela aposentadoria apertada ou pela solidão que muitos enfrentam.

Mas porque parece que, a cada ano, surgem novas formas de convencer idosos a gastar dinheiro que eles nem deveriam gastar.

Meu sogro é aposentado e recebe, há muitos anos, a pensão deixada pela esposa.

Infelizmente, durante boa parte da vida, foi uma pessoa boa até demais.

Daquelas que tiram da própria boca para ajudar os outros.

O problema é que nem todo mundo merece essa confiança.

Ao longo dos anos, ele acabou acumulando dores de cabeça que poderiam ter sido evitadas.

Uma delas foi quando aceitou financiar um celular em seu nome para um sobrinho.

Parcelado.

No boleto.

O aparelho não durou nem dois meses.

Segundo ele, o sobrinho acabou perdendo o celular por envolvimento com drogas.

O telefone desapareceu.

As parcelas continuaram chegando.

Quem já ajudou alguém dessa forma sabe como termina essa história.

A dívida fica.

A gratidão, nem sempre.

Em outra ocasião, saiu para pagar uma conta de uma loja e voltou para casa com um plano de telefonia que jamais havia planejado contratar.

Na cabeça dele, pagaria cerca de trinta reais por mês.

Quando chegaram as primeiras cobranças, a realidade era outra.

A conta ultrapassava cento e cinquenta reais, somando tarifas e serviços que ele sequer utilizava.

Depois de muita conversa, conseguimos cancelar parte do contrato e buscar o ressarcimento do que havia sido cobrado indevidamente.

Mas até resolver tudo, foram semanas de preocupação.

E isso me fez pensar.

Quantos idosos passam exatamente pela mesma situação todos os dias?

Vivemos em uma sociedade cada vez mais digital.

Aplicativos.

Bancos digitais.

Cartões com pagamento por aproximação.

Mensagens oferecendo crédito.

Empréstimos pré-aprovados.

Promoções que aparecem com apenas um clique.

Para quem cresceu usando tudo isso, talvez pareça simples.

Mas para muitas pessoas idosas, essa velocidade tecnológica representa um desafio enorme.

Antes de morar conosco, meu sogro vivia sozinho.

Quando íamos visitá-lo aos domingos, ele costumava dizer:

— O governo está me dando dinheiro.

Na época eu imaginava que fosse alguma informação equivocada.

Depois descobrimos que eram ofertas de empréstimos enviadas para o celular.

Ele acreditava que aquele dinheiro era um benefício.

Na verdade, estava contratando dívidas.

Foi somente depois que sua filha passou a administrar as finanças da casa que a situação começou a mudar.

Hoje ela organiza as contas, faz as compras, acompanha os gastos e entrega a ele o dinheiro necessário para suas despesas e passeios.

Isso devolveu tranquilidade para toda a família.

Mas nem todos os idosos têm alguém por perto.

E é justamente aí que mora o perigo.

Além das ofertas de crédito, cresce também a quantidade de propagandas prometendo dinheiro fácil por meio de apostas, jogos de azar e plataformas que vendem a ilusão do lucro rápido.

Para um jovem informado, essas propagandas já podem ser perigosas.

Imagine para alguém que cresceu acreditando que toda propaganda na televisão era verdadeira.

A tecnologia trouxe inúmeros benefícios.

Facilitou pagamentos.

Reduziu filas.

Aproximou pessoas.

Mas também aumentou a responsabilidade de proteger quem não acompanhou essa transformação no mesmo ritmo.

Cuidar de um idoso não significa apenas levá-lo ao médico.

Também significa ajudá-lo a identificar golpes, entender contratos, desconfiar de promessas milagrosas e preservar aquilo que muitas vezes representa toda uma vida de trabalho.

Porque envelhecer já é difícil.

Não deveria ser também uma disputa diária contra quem tenta aproveitar da boa-fé alheia.


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Atenciosamente,

A Observadora Ácida

Comentários

  1. Muito boa reflexão, envelhecer é algo inevitável, mas tem coisas que parecem ser mais um obstáculo do que um ponto de segurança. Parabéns pelo post.

    Arthur Claro
    http://www.arthur-claro.blogspot.com

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Arthur, muito obrigada pelo comentário! Fico feliz que a reflexão tenha feito sentido para você. A tecnologia deveria facilitar a vida de todos, não transformar o cotidiano de quem envelheceu em uma sequência de obstáculos. Infelizmente, ainda temos muito a evoluir nesse aspecto. Espero encontrar você por aqui novamente — assunto para observar, infelizmente, nunca falta. 😊

      Atenciosamente,
      A Observadora Ácida

      Excluir

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