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Mostrando postagens com o rótulo Crônica Ácida

O Velhinho Sábio que Jogou Sabedoria no Rio

Estava eu voltando para casa naquele raro momento em que o ônibus parecia até VIP: vazio, silencioso e — pasme — com cheiro neutro.  O semáforo fecha, eu olho pela janela e vejo uma cena que não era exatamente inédita, mas sempre surpreendente pela qualidade do protagonista . Não era um morador de rua, não era alguém “desprovido de civilização”, como muitos adoram dizer enquanto seguram firme seu moralismo de bolso. Era um senhor , desses que o senso comum descreve como “de idade”, “de respeito”, “de sabedoria”… e que geralmente reclamam de tudo: do lixo na rua, da juventude perdida, dos valores que acabaram, do governo, da vida, do clima e, claro, da “falta de educação dos outros”. Pois bem. Lá estava o sábio. Na mão dele, uma garrafinha PET que — sejamos sinceros — tinha toda a estética suspeita de uma embalagem de cachaça. Ele dá o último gole do que provavelmente era a verdade líquida da noite anterior, rosqueia a tampinha com toda a destreza de quem ainda tem força moral par...

O sorriso que ninguém devolve

 Hoje precisei ir a uma consulta. Nada demais — só mais uma daquelas peregrinações onde o cansaço emocional chega antes da gente.  Assim que cheguei, a urgência bateu: banheiro. Sempre aquela aventura antropológica de descobrir se o espaço é individual, coletivo, misto, interditado ou se vai me surpreender com algo pior que a própria consulta. Bati na porta. Abri. E lá estava uma senhora, saindo. Ela me olhou. Eu a olhei. E, por reflexo — talvez por teimosia — eu sorri. Sim, eu sorrio. Ainda tenho essa mania. Essa falha de fábrica, talvez. Esse defeito humano que insiste em acreditar que gentileza ainda conversa com alguém. Mas a senhora… Ah, a senhora me devolveu um olhar. Um olhar vazio, quase administrativo: “não tenho tempo para emoções, querida” . Nem um canto de boca levantado, nem um micro gesto, nada. Só aquele silêncio urbano que diz “não me envolva, eu só existo”. E eu ali, segurando meu sorriso como quem segura uma mala que ninguém ajudou a carregar. À...

O Problema Não É o Mundo

O Problema Não É o Mundo — São as Pessoas Que Não se Leem Hoje acordei com aquela sensação clássica de que o mundo não está ruim… as pessoas é que andam funcionando no modo economia de consciência . Todo dia alguém dá um show de falta de noção na vida real, na internet ou na fila do mercado (especialidade nacional). E aí eu percebi: tem gente que não passa da superfície da própria existência. Não se questiona, não se analisa, não se confronta. Quer um spoiler? Quem não se lê, não evolui. Foi pensando nisso que lembrei de um livro que sempre me cutuca quando começo a perder a fé no comportamento humano: 📚 Indicação de leitura   O Óbvio que Ignoramos — Jacob Pétry Se você acha que já viu de tudo na vida, este livro aparece para esfregar na sua cara que não viu nada — porque vive ignorando justamente o que está na sua frente. Pétry desmonta comportamentos automáticos, questiona crenças que aceitamos sem pensar e, o melhor: faz você perceber que o problema muitas vezes é… você ...

A Ética saiu para o Recreio e não voltou mais

Mais uma vez estou aqui — e, como sempre, outra indignação me aparece. Vim visitar minha mãe, que trabalha com van escolar para uma escola pública. Pela manhã, todos os funcionários se reúnem para o café, com bolachas e risadas, prontos pra começar o dia. Minha mãe vai à escola três vezes por dia para fazer seu serviço, e nessas idas e vindas, alguns funcionários pegam carona com ela. E, como em todo ambiente de trabalho, as fofocas correm soltas. Mas desta vez, não é só fofoca: é absurdo mesmo. Ela ficou sabendo que acontecem roubos dentro da própria escola — e não de pessoas de fora, mas dos próprios funcionários. Sim, você leu certo. A cozinheira… e até a própria diretora. Eles roubam alimentos que deveriam ser das crianças. Comem ou levam pra casa o que foi destinado à merenda. Enquanto isso, as crianças comem maçãs cortadas em quatro pedaços, quando o certo seria cada aluno receber uma maçã inteira. E tem mais: a senhora cozinheira coloca colher de boca diretamente na comida das c...