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Entre receitas sem assinatura e agendas inexistentes: o caos silencioso do atendimento público

Duas semanas sem ir à academia.

Tudo por conta de uma mini cirurgia. Mini mesmo. Mas o terrorismo psicológico materno foi tão convincente que obedeci rigorosamente:

  • nada de esforço,
  • nada de peso,
  • nada de inventar moda,
  • nada de “já estou bem”.

Resultado?

O corpo parado.
A mente inquieta.
E aquela culpa clássica de quem treina e começa a sentir que o sedentarismo de quinze dias já virou aposentadoria física.

Mas hoje finalmente voltei.

E como o universo claramente trabalha com roteiros irônicos, meu remédio acabou justamente no fim de semana.

Pensei:
“Sem problemas. Pós-treino passo no posto, pego receita nova e sigo a vida.”

Ingenuidade minha.

O paciente precisa ser pontual. O sistema nunca.

Cheguei no posto de saúde e a atendente, com a serenidade de quem anuncia previsão do tempo, me informou:

— “Volta às 14h para passar com a médica nova.”

Nova médica.
Nova receita.
Nova esperança.

Voltei no horário. Ou melhor: antes do horário, porque o paciente sempre precisa chegar cedo. O sistema público, por outro lado, parece viver numa relação aberta com o relógio.

Fui atendida por volta das 14h20.

A médica?
29 anos, recém-chegada, educada, atenciosa e surpreendentemente humana.

E sinceramente? Isso hoje quase emociona.

Porque vivemos tempos em que até convênio médico perdeu o costume de olhar na cara do paciente. Então quando alguém te escuta com calma, explica as coisas direito e demonstra paciência… parece evento raro.

Ela renovou minha receita, explicou direitinho e, antes de eu sair, ainda entregou um papel dizendo:

— “Agenda retorno daqui dois meses para renovar novamente.”

Perfeito.

Ou quase.

A arte brasileira de desorganizar até o básico

Saí da consulta, peguei senha na recepção e aguardei.

Em pé.

Esperei.

Esperei muito.

Esperei tempo suficiente para:

  • questionar minhas escolhas,
  • sentir o treino pesado chegando no corpo,
  • perceber que ainda não tinha almoçado,
  • e começar a tremer de fome igual notebook velho superaquecendo.

Quando finalmente chamaram minha senha:
15h56.

Quase duas horas depois para uma coisa que levaria literalmente dois minutos.

O rapaz da recepção então me informa:

— “Não tem como agendar retorno. A médica está aqui faz só uma semana e ainda não tem agenda aberta. Nem para daqui dois meses.”

Silêncio interno.

Porque nesse momento você não sabe se ri, se chora ou se simplesmente aceita que o sistema funciona na base do improviso permanente.

A médica manda agendar.
A recepção diz que não existe agenda.
O paciente fica no meio da comunicação desencontrada tentando sobreviver.

Brasil em estado puro.

E claro… faltava a assinatura

Mas o auge ainda estava por vir.

Olhei novamente para a receita.

Sem assinatura.

Sim.
Receita de medicamento controlado.
Sem assinatura médica.

Um detalhe mínimo.
Quase insignificante.
Só impossibilita completamente retirar o remédio.

Mais uma risada nervosa ativada com sucesso.

E sinceramente? Nem consegui ficar brava.

Porque dava para perceber que não era má vontade. Era falta de alinhamento, prática e estrutura.

A médica foi educada o tempo inteiro. Gostei dela de verdade. E torço sinceramente para que permaneça ali mais tempo do que a última, que simplesmente desapareceu sem aviso — como quase tudo no serviço público.

O posto resumido numa única caixa vazia

Enquanto aguardava, comecei a observar o ambiente.

Na entrada havia uma caixa com um aviso enorme incentivando a prevenção e os cuidados básicos de saúde.

A caixa estava vazia.

E talvez aquilo tenha resumido perfeitamente a experiência inteira.

A orientação existe.
O cartaz existe.
A intenção existe.
O discurso existe.

Mas o básico… não chegou.

E essa talvez seja a definição mais honesta de muitos serviços públicos atualmente:
uma eterna tentativa de funcionar sem estrutura suficiente para realmente funcionar.

No fim, saí de lá cansada, com fome, receita incompleta e uma reflexão inevitável:
o problema raramente é uma única pessoa.

É o sistema inteiro funcionando no improviso até que alguém esqueça justamente o detalhe que não poderia faltar.


Observações: Enquanto aguardava, observei o ambiente. Logo na entrada, uma caixa com um aviso bem claro:


A caixa estava vazia.
Talvez seja isso: a orientação existe, o cuidado está escrito, mas o básico… não chegou.
Se você também entendeu a ironia, comenta aqui embaixo sua opinião.

📚 Indicação de leitura

Recomendo O Processo, de Franz Kafka.
Porque poucas obras representam tão bem a sensação de estar preso em sistemas burocráticos confusos, onde ninguém parece saber exatamente como as coisas funcionam — mas, ainda assim, tudo continua funcionando pela metade.

👉 Confira a edição disponível na Amazon

Atenciosamente,
A Observadora Ácida

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