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O patriotismo de fachada e o lixo da realidade

Hoje liguei a televisão e estava passando uma série que assisto vez ou outra. 

Em um dos episódios, o personagem principal foi chamado para trabalhar como segurança da filha de um homem poderoso. Até aí, nada demais. Mas teve uma fala que me chamou atenção.

O rapaz perguntou:
— “Ela já não tem segurança?”

E o homem respondeu que a empresa responsável era brasileira… e que brasileiros eram suscetíveis à corrupção e à venda de informações para a mídia.

Pesado, né?

E pior que, infelizmente, certas situações fazem a gente entender de onde vem essa fama. Porque cada vez mais o brasileiro lá fora é visto com desconfiança — e não é por acaso. Claro que não dá para generalizar um país inteiro, mas também não dá para fingir que a cultura do “cada um por si” virou algo normalizado por aqui.

E sinceramente? Isso começa justamente em quem deveria dar exemplo.

Os políticos aparecem em época de eleição prometendo cuidado, organização, melhorias… mas basta passar a votação que o abandono volta ao normal. Praça esquecida, bairro largado, sujeira acumulada, iluminação precária, manutenção inexistente. O patrimônio público só ganha atenção quando vira cenário de campanha eleitoral.

Aqui perto de casa mesmo existem várias praças abandonadas. Mas uma delas consegue ser especial no quesito decadência.

Cheia de lixo.
Mas não lixo qualquer.

Resíduos humanos mesmo.
Copos descartáveis de adega,
embalagens de fast-food,
garrafas,
sujeira espalhada,
e até camisinha jogada no chão.

O mais irônico?
Os próprios moradores colocaram placa de:
“PROIBIDO CACHORRO”.

Sim. O cachorro virou o problema oficial da praça.

Porque, aparentemente, o cocô do animal ameaça mais o ambiente do que os próprios seres humanos que transformam o local num depósito de descaso coletivo.

O pobre do cachorro não pode passear por lá.
Mas o cidadão pode beber, jogar lixo no chão, destruir espaço público e ir embora como se nada tivesse acontecido.

É curioso como a sociedade adora responsabilizar o mais fácil.
O animal.
O funcionário.
O motorista.
O povo.
Sempre alguém abaixo.

Enquanto isso, ninguém quer discutir educação, consciência coletiva ou responsabilidade social. Porque exigir mudança real dá trabalho. Mais fácil colocar uma placa proibindo cachorro e fingir que o problema foi resolvido.

E talvez seja exatamente isso que constrói nossa imagem lá fora:
não apenas a corrupção financeira,
mas a corrupção moral do cotidiano.
A pequena falta de ética normalizada.
O “não é problema meu”.
O “alguém limpa depois”.
O “cada um por si”.

No fim, queremos respeito internacional sem conseguir respeitar nem o espaço público do próprio bairro.

E isso diz muito mais sobre um país do que qualquer discurso patriótico em época de Copa do Mundo.

📚 Indicação de leitura

A Elite do Atraso, de Jessé Souza, é uma leitura necessária para entender como desigualdade, abandono social e normalização do descaso foram sendo construídos no Brasil ao longo do tempo.

O livro mostra como certos comportamentos coletivos não surgem do nada — eles refletem uma estrutura social onde responsabilidade pública e consciência coletiva acabam sempre ficando em segundo plano.

E sinceramente? Basta olhar algumas praças de bairro para perceber que a reflexão continua atual.

👉 Confira a edição disponível na Amazon


Atenciosamente,
A Observadora Ácida

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