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A fila invisível da saúde pública

Quem depende do sistema público de saúde aprende uma coisa muito rápido: além de paciência, é preciso ter tempo.

Muito tempo.

Recentemente, minha esposa precisou realizar uma endoscopia.

Depois de um período de espera, finalmente veio o agendamento.

Até aí, tudo certo.

O que chamou minha atenção foi o local e o horário.

Ela foi encaminhada para realizar o exame na Brasilândia, um bairro onde nunca havia estado, com apresentação marcada para 1 hora da manhã.

Confesso que nunca tinha visto algo parecido.

Não estou questionando a qualidade do atendimento nem dos profissionais de saúde — que, muitas vezes, fazem verdadeiros milagres com a estrutura que têm.

A minha reflexão é outra.

Será que faz sentido uma pessoa precisar atravessar a cidade durante a madrugada para realizar um exame que exige sedação?

Para quem conhece a região, talvez seja tranquilo.

Mas imagine alguém que nunca esteve naquele lugar.

Imagine quem depende de transporte público.

Imagine uma mulher indo sozinha.

Nem todo mundo tem carro.

Nem todo mundo consegue um acompanhante.

Ainda assim, o exame foi realizado e, felizmente, correu tudo bem.

Pensei que a parte difícil havia terminado.

Estava enganada.

No dia seguinte, era preciso retornar à Unidade Básica de Saúde apenas para agendar a consulta de retorno.

Algo simples.

Ou pelo menos deveria ser.

Minha esposa aguardou quase duas horas apenas para passar pela recepção e conseguir marcar uma nova consulta.

Duas horas.

Não para consultar.

Não para realizar exames.

Não para receber atendimento médico.

Somente para fazer um agendamento.

Enquanto esperava, observei outras pessoas na mesma situação.

Idosos.

Gestantes.

Pais com crianças pequenas.

Todos aguardando exatamente a mesma etapa burocrática.

E foi impossível não pensar em quantas horas de vida são desperdiçadas em processos que poderiam ser muito mais simples.

Vivemos em uma época em que bancos funcionam pelo celular, documentos são emitidos digitalmente e até reuniões de trabalho acontecem por videoconferência.

Mas, em muitos serviços públicos, ainda gastamos horas apenas para marcar uma consulta.

Outro detalhe me chamou atenção.

Estamos em ano eleitoral.

E, curiosamente, muita gente comenta que exames e procedimentos parecem acontecer com mais rapidez nesse período.

Não tenho como afirmar se isso realmente acontece ou se é apenas uma percepção comum entre quem utiliza o sistema público.

Mas a própria existência dessa dúvida já diz muito sobre a confiança que parte da população deposita na gestão da saúde.

No fim das contas, a maior questão talvez não seja quanto tempo uma pessoa espera por um exame.

É quanto tempo ela perde para conseguir acesso ao próprio sistema.

Porque cuidar da saúde já é desgastante por si só.

O processo não deveria tornar tudo ainda mais difícil.

📚 Indicação de leitura

A Elite do Atraso — Jessé Souza

O livro convida o leitor a refletir sobre como desigualdades estruturais afetam o acesso a serviços essenciais, como saúde, educação e oportunidades. Independentemente de concordar ou não com todas as ideias do autor, é uma leitura que ajuda a compreender por que tantas pessoas ainda enfrentam dificuldades para acessar direitos básicos.

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Atenciosamente,

A Observadora Ácida

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