Postagens

Pet friendly ou pet tolerado mediante taxa?

 Pesquisando uma pousada para tirar uns dias de descanso merecido em casal — mas claro, que aceite pet — comecei a ver as opções de ida de avião ou carro. E vamos combinar: infelizmente as companhias aéreas fazem de tudo para dificultar a ida do seu bichinho junto com você. Fui ver todas as possibilidades, toda a papelada necessária… e mesmo assim, se o seu pet não couber embaixo do banco da frente — que, vamos lá né, mal cabe a gente, quem dirá um ser vivo naquele cubículo — querem empurrar o animal como carga. CARGA. Como se fosse uma mala despachada. Uma vergonha. Quem foi o imbecil que pensou nisso? E quem foi o outro que autorizou? Apêndice necessário (porque a realidade às vezes consegue ser pior que a ironia): Não faz muito tempo que circulou a notícia de um cachorro transportado na carga da Latam que morreu após o voo. Um ser vivo tratado como objeto logístico. E depois vêm as notas oficiais, os “lamentamos o ocorrido” e os protocolos que “serão revisados”. Mas a pergunt...

A coxinha que me fez questionar o mundo

 Na cidade vizinha de onde meus pais moram existe uma padaria. Uma padaria comum. Fachada simples. Nada instagramável. Mas ali… existe uma coxinha. E não é qualquer coxinha. Ela é sequinha. Nada oleosa. Super crocante. O tempero? Digno. Recheio generoso, equilibrado, sem aquele gosto industrial que parece temperado com arrependimento. E os sachês? Marca boa. De verdade. Ketchup com cor de ketchup. Maionese com gosto de maionese. Mostarda que não parece água colorida. Dá gosto rasgar com os dentes e espalhar onde vai dar a próxima abocanhada. Na última vez que fui, comi cinco. Sim, cinco. E ainda esperei assarem mais para levar para casa. Sem culpa. Porque aquilo ali valia um almoço. E aí eu volto para São Paulo. Especialmente o centro. E me pergunto: por que é tão difícil comer um salgado decente? Você paga. Morde. E se arrepende. Salgado encharcado. Massa pesada. Recheio duvidoso. Sachê transparente de tão ralo. Tem ketchup que nem vermelho é direito....

Só sou lembrada quando a bucha é grande

 Existe um tipo específico de convocação na minha vida. Ela nunca começa com: “Como você está?” Ela começa com: “Oi. Preciso que você...” Meu sogro é a personificação da bondade desprotegida. Mais de 60 anos. Sem casa própria. Sem bens. Mas com um coração que cabe o mundo — e um talento impressionante para aceitar qualquer coisa que empurrem pra ele. Fim do ano passado ele apareceu com um celular novo. Capa. Película. Nota fiscal mostrando R$150 numa película. Eu tive um pequeno colapso silencioso. “Já estava colocado, então eu paguei”, ele disse. Se alguém oferecer um rim parcelado em 12x, ele considera. E não é maldade. É ingenuidade combinada com vendedores que enxergam aposentadoria como meta mensal. Outro dia surgiu com mais uma situação: “Preciso que você vá comigo na Pernambucanas resolver um chip.” Um chip. Ele já tem um. Mas aceitaram vender outro. Que era 29,90. Ou 140 e pouco. Ou 200 e tanto. Nem ele sabe explicar. E eu tentando extrair informações como s...

O Brasil não é para amadores (e muito menos para quem guarda conversa)

 Fui checar o andamento do processo contra a advogada. Sim, aquela mesma. A do primeiro capítulo dessa novela jurídica não solicitada. E descobri algo fascinante: Segundo ela, eu estou mentindo. Eu, que pedi meu dinheiro com paciência. Eu, que esperei. Eu, que conversei. Eu, que insisti educadamente antes de procurar meus direitos. Segundo ela, eu bloqueei desde o início e por isso ela não fez os repasses faltantes. Ah, querida. O WhatsApp não mente. Tenho as conversas. Tenho os áudios. Inclusive aquele em que você diz que devolveria 100% do valor do segundo serviço jurídico que não foi feito — porque eu cancelei em menos de 24h. Em nenhum momento foi falado sobre “taxa por perguntas”. Muito pelo contrário. “Você pode perguntar, você já é cliente do escritório.” Está gravado. Mas agora, curiosamente, a narrativa mudou. E o mais interessante? Essa mesma advogada já trocou de sócios várias vezes. Pessoa próxima a mim relata cobranças duplicadas, parcelas já pagas que não f...

A Ironia...

Imagem
Que dia caótico. Duas semanas sem ir à academia por conta de uma mini cirurgia . Mini mesmo — mas o terror psicológico materno foi tão eficiente que obedeci à risca: nada de esforço, nada de gracinha, nada de refazer procedimento. Resultado? Corpo parado, mente inquieta e culpa acumulada. Hoje, finalmente, voltei para a academia. E como o universo adora um roteiro bem escrito, o meu remédio acabou justamente no fim de semana. Sem drama, pensei. Pós-treino, passo no posto, renovo a receita e sigo a vida. Chegando lá, a atendente informa com toda a naturalidade do mundo: — Volta às 14h pra passar com a médica nova. Nova mesmo. Receita nova. Vida nova. Retornei. Como manda o figurino, cheguei antes do horário (porque o paciente sempre tem que chegar cedo — o sistema, nunca). Fui atendida por volta das 14h20. A médica: 29 anos, recém-chegada, educada, atenciosa, explicou tudo com calma. Gostei. De verdade. Num cenário onde nem convênio entrega humanidade, aquilo foi quase um evento. Recei...

A coragem que só existe na multidão

Aqui estou eu, mais uma vez, contando um desses absurdos cotidianos que insistem em acontecer. E antes que alguém diga “ah, isso acontece com todo mundo”, sim — acontece. Mas nem por isso deixa de ser revoltante. Fazia muito, mas muito tempo mesmo, que eu não ia a uma feira de rua daquelas raiz: rua fechada, bancas improvisadas, cheiro de pastel, caldo de cana e infância espalhada no ar. Minha mãe veio me visitar e, entre as coisas que ela queria reviver, estava justamente isso — pastel de feira e caldo de cana. Coisas simples. Coisas que aquecem a memória. Eu amo. Saímos de casa com o novo bebê da família: o pet recém-adotado da minha mãe. Primeira vez dele na rua, primeira vez numa cidade grande, de coleira, com todos os estímulos possíveis. No começo, ficou assustado. Travou. Tivemos que pegá-lo no colo algumas vezes, principalmente quando via outros cachorros. Ele latia bastante — medo, curiosidade, nervosismo, vontade de brincar… quem sabe? Só sei que latia e resmungava como todo ...

Quem paga enxerga... Quem espera adoece!

Uma pessoa muito querida por mim estava, desde novembro de 2025, com exames agendados pelo SUS. Entre eles, uma consulta com oftalmologista — daquelas que a gente sabe que demoram, mas acontecem. Ou melhor, deveriam acontecer. A consulta estava marcada para o dia 23/01/2026. Tudo certo. Tudo confirmado. Tudo dentro do roteiro clássico de quem espera meses por um atendimento básico. Eis que, um dia antes, ligam para cancelar. Motivo? O profissional que realizaria o exame simplesmente “não vai comparecer”. Pronto. Fim de linha. Dois meses de espera descartados com uma ligação de minutos. Agora me explica: estamos falando do CEMA. O CEMA. Um hospital de grande porte, referência em oftalmologia. Quer dizer que só existe um único profissional capacitado para realizar esse exame? Nenhum plano B? Nenhuma substituição? Nenhuma alternativa? Curiosamente — e aqui entra a parte que incomoda — se você atravessar a rua e entrar na loja de óculos ali do lado, dizendo que precisa atualizar a receita ...

Educação sob demanda

Conheço essa pessoa há anos. Daquelas que aparecem, somem, reaparecem — sempre quando convém. Em 2020, auge da pandemia, ela me procurou. Queria aprender a fazer dinheiro render. Investir. “Nem que fosse pouco”, dizia. Engraçado como, quando o aperto aperta, todo mundo lembra de quem estudou, de quem se dedicou, de quem sabe explicar. Na época, eu já estava havia dois anos aprendendo a investir — pouco a pouco, como sempre fiz. Ajudei. Abri para ela uma conta em uma corretora de investimentos , expliquei que transferências precisam ser de conta para conta de mesma titularidade , fiz tudo certo. Do jeito certo. Porque gosto das coisas certas. Desde então? Silêncio. Nem comigo, nem com a minha mãe — que mora na mesma cidade — ela mantém contato. Só aparece quando precisa. Educação sob demanda. Afeto sob demanda. Conveniência pura. Pois bem. Ano novo. Família reunida. Mesa cheia, conversa boa. E eis que ela manda mensagem para minha mãe perguntando se ela estava disponível para u...

Entre o pedágio e a indiferença

Imagem
Lá estava eu voltando de viagem, atravessando o pedágio da cidade de Mairiporã (MG), quando a cena me fez frear a alma: três carros tentando encurralar um cachorro no canto da rodovia. Desci do carro perguntando o que havia acontecido, se precisavam de ajuda. Silêncio. Três mulheres em volta do animal, mas ninguém encostava. Não por agressividade do cachorro — ele não rosnava, não mostrava os dentes. Estava apenas apavorado. O medo ali não era dele. Era humano. Ou talvez fosse nojo disfarçado de cautela. Foi um homem, no carro ao lado, quem finalmente explicou: — Um carro acabou de passar pela cancela do pedágio e jogou o cachorro pela janela. Sim. Jogou. Como quem se livra de um lixo inconveniente. Como tenho pets, carrego uma guia no carro. Peguei, desci e fui tentar segurá-lo. Enquanto isso, perguntava: alguém viu a placa? Ninguém viu. Estamos sempre tão distraídos — até quando o crime acontece diante dos nossos olhos. Pedi ajuda à senhora que confirmou ter visto o abandono. Sugeri ...

O curso milagroso e o emprego que nunca existiu

 Aqui estou eu: fim de faculdade, currículo pronto, coragem na bolsa e aquele otimismo frágil de quem acredita que estudar ainda serve para alguma coisa. Procuro vagas na minha área — estágio, PJ, CLT, o nome não importa, desde que venha acompanhado de dignidade. Uso plataformas de emprego, aquelas que prometem conectar empresas e profissionais. Tudo muito moderno. Tudo muito organizado. Até que recebo uma mensagem: “Envie seu currículo para: nomedaempresa (arroba) email (ponto) com”. Sim. Escrito assim. Como se estivéssemos em 2003. Como se ninguém soubesse usar o próprio sistema pelo qual está pagando. A vontade inicial foi rir. A segunda foi chorar. A terceira foi perceber que o problema não é tecnológico — é conceitual. A empresa se cadastra numa plataforma para ver currículos , mas pede que o candidato envie o currículo… fora da plataforma. É tipo entrar num restaurante e pedir delivery do prato que está na sua frente. Mas ok. Engoli o sarcasmo, respirei fundo e enviei ...

O Velhinho Sábio que Jogou Sabedoria no Rio

 Estava eu voltando para casa naquele raro momento em que o ônibus parecia até VIP: vazio, silencioso e — pasme — com cheiro neutro. O semáforo fecha, eu olho pela janela e vejo uma cena que não era exatamente inédita, mas sempre surpreendente pela qualidade do protagonista . Não era um morador de rua, não era alguém “desprovido de civilização”, como muitos adoram dizer enquanto seguram firme seu moralismo de bolso. Era um senhor , desses que o senso comum descreve como “de idade”, “de respeito”, “de sabedoria”… e que geralmente reclamam de tudo: do lixo na rua, da juventude perdida, dos valores que acabaram, do governo, da vida, do clima e, claro, da “falta de educação dos outros”. Pois bem. Lá estava o sábio. Na mão dele, uma garrafinha PET que — sejamos sinceros — tinha toda a estética suspeita de uma embalagem de cachaça. Ele dá o último gole do que provavelmente era a verdade líquida da noite anterior, rosqueia a tampinha com toda a destreza de quem ainda tem força moral par...

O sorriso que ninguém devolve

 Hoje precisei ir a uma consulta. Nada demais — só mais uma daquelas peregrinações onde o cansaço emocional chega antes da gente. Assim que cheguei, a urgência bateu: banheiro. Sempre aquela aventura antropológica de descobrir se o espaço é individual, coletivo, misto, interditado ou se vai me surpreender com algo pior que a própria consulta. Bati na porta. Abri. E lá estava uma senhora, saindo. Ela me olhou. Eu a olhei. E, por reflexo — talvez por teimosia — eu sorri. Sim, eu sorrio. Ainda tenho essa mania. Essa falha de fábrica, talvez. Esse defeito humano que insiste em acreditar que gentileza ainda conversa com alguém. Mas a senhora… Ah, a senhora me devolveu um olhar. Um olhar vazio, quase administrativo: “não tenho tempo para emoções, querida” . Nem um canto de boca levantado, nem um micro gesto, nada. Só aquele silêncio urbano que diz “não me envolva, eu só existo”. E eu ali, segurando meu sorriso como quem segura uma mala que ninguém ajudou a carregar. Às veze...

O Problema Não É o Mundo

O Problema Não É o Mundo — São as Pessoas Que Não se Leem Hoje acordei com aquela sensação clássica de que o mundo não está ruim… as pessoas é que andam funcionando no modo economia de consciência . Todo dia alguém dá um show de falta de noção na vida real, na internet ou na fila do mercado (especialidade nacional). E aí eu percebi: tem gente que não passa da superfície da própria existência. Não se questiona, não se analisa, não se confronta. Quer um spoiler? Quem não se lê, não evolui. Foi pensando nisso que lembrei de um livro que sempre me cutuca quando começo a perder a fé no comportamento humano: Livro indicado: O Óbvio que Ignoramos — Jacob Pétry Se você acha que já viu de tudo na vida, este livro aparece para esfregar na sua cara que não viu nada — porque vive ignorando justamente o que está na sua frente. Pétry desmonta comportamentos automáticos, questiona crenças que aceitamos sem pensar e, o melhor: faz você perceber que o problema muitas vezes é… você mesmo. Sutil...

A fila do Sermão

Há filas que ensinam decência. E há filas que ensinam exatamente o contrário — a arte de empurrar a alma alheia. Hoje vi uma senhora com sacola cheia esperar educadamente. Ao lado, um homem com fone nos ouvidos interpretava a pressa do mundo como licença para transformar o espaço público em seu reino de ego. Cortou, calculou, esticou o braço: “Só passo na frente, é rapidinho”. Rapinho é o conto de fadas dos inconvenientes. O que me impressiona é a fantasiosa ética de quem acha que o próprio tempo vale mais do que o de todos. Como se os minutos dele tivessem mais quilates. Pergunto: desde quando a pressa virou argumento? Desde quando a ausência de educação virou prioridade? A fila ensina paciência. Mostra o quanto esquecemos de olhar para o outro. E quando alguém resolve ensinar com antecedência, a plateia aplaude o que antes era imperdoável: a grosseria disfarçada de eficiência. Se a vida fosse só dessa pressa, ainda bem que existem filas. Elas nos lembram que, por enquanto, o mund...

A Ética saiu para o Recreio e não voltou mais

Mais uma vez estou aqui — e, como sempre, outra indignação me aparece. Vim visitar minha mãe, que trabalha com van escolar para uma escola pública. Pela manhã, todos os funcionários se reúnem para o café, com bolachas e risadas, prontos pra começar o dia. Minha mãe vai à escola três vezes por dia para fazer seu serviço, e nessas idas e vindas, alguns funcionários pegam carona com ela. E, como em todo ambiente de trabalho, as fofocas correm soltas. Mas desta vez, não é só fofoca: é absurdo mesmo. Ela ficou sabendo que acontecem roubos dentro da própria escola — e não de pessoas de fora, mas dos próprios funcionários. Sim, você leu certo. A cozinheira… e até a própria diretora. Eles roubam alimentos que deveriam ser das crianças. Comem ou levam pra casa o que foi destinado à merenda. Enquanto isso, as crianças comem maçãs cortadas em quatro pedaços, quando o certo seria cada aluno receber uma maçã inteira. E tem mais: a senhora cozinheira coloca colher de boca diretamente na comida das c...

A advogada sem NoçãoO

  💭 Mais uma Observação Ácida da minha Vida... Aí vai mais uma observação ácida da minha vida — mais uma prova de que não importa a profissão: quando a pessoa só enxerga o próprio umbigo, o “dane-se o próximo” fala mais alto. Fui demitida sem justa causa de uma empresa e, através da terapia (que ainda faço e recomendo — todos deveriam fazer!), recebi indicação da minha psicóloga sobre uma advogada. Movi uma ação contra a empresa, ganhei o processo, e tudo certo. Recebi o primeiro repasse, e ainda restavam algumas parcelas. Até aí, tranquilo. Só que surgiu a oportunidade de comprar uma casa, e — como gosto das coisas feitas direitinho (sim, sou insuportável com isso) — procurei a mesma advogada para me orientar. Não pedi favor, só orientação. Ela deixou claro, várias vezes, que por eu já ser cliente do escritório, não cobraria a consulta . Repetiu isso tantas vezes que até achei exagero. Agradeci, paguei apenas a taxa pra puxar a matrícula do imóvel, e pronto. Depois de es...

Carta de ApresentaçãoO

📨  Seja bem-vindo(a) ao Diário de uma Observadora Ácida Alguns colecionam figurinhas, outros memórias. Eu coleciono absurdos do cotidiano — os comentários fora de lugar, as contradições disfarçadas de “opinião”, os pequenos espetáculos do ego humano que acontecem todos os dias diante dos nossos olhos. Bem-vindo(a) ao Diário de uma Observadora Ácida , um espaço onde o sarcasmo é ferramenta de análise e a ironia, uma forma de carinho. Aqui, falo do que vivi, ouvi e engoli (ou não). Situações reais, pensamentos fora da curva e reflexões que às vezes queimam um pouquinho — mas curam. Não prometo conforto, mas prometo sinceridade. Se você também observa o mundo com uma sobrancelha arqueada e uma risada contida, então vai se sentir em casa por aqui. Pegue seu café (ou sua paciência) e vem comigo. A acidez é opcional — mas o olhar crítico, esse é obrigatório. Atenciosamente, A Observadora Ácida