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Quando a confiança vira parcela atrasada

Aí vai mais uma observação ácida da minha vida — 

mais uma prova de que não importa a profissão: quando a pessoa só enxerga o próprio umbigo, o “dane-se o próximo” sempre fala mais alto.

Fui demitida sem justa causa de uma empresa e, através da terapia (que ainda faço e recomendo — saúde mental deveria ser prioridade para todo mundo), recebi a indicação de uma advogada feita pela minha psicóloga.

Entrei com uma ação trabalhista contra a empresa, o processo foi ganho e comecei a receber os repasses normalmente.

Até aí, tudo certo.

O problema começou quando surgiu a oportunidade de comprar uma casa. Como gosto de fazer as coisas corretamente — e evitar dor de cabeça futura — procurei a mesma advogada para me orientar sobre a documentação do imóvel.

Não pedi favor. Pedi orientação profissional.

Ela deixou claro várias vezes que, por eu já ser cliente do escritório, não cobraria pela consulta inicial. Repetiu isso tantas vezes que até achei curioso.

Paguei apenas a taxa necessária para puxar a matrícula do imóvel e seguimos analisando a situação.

Depois de estudar o caso, ela me ligou. Conversamos bastante sobre riscos, documentação e possibilidades da compra. No fim da conversa, veio o valor do serviço jurídico para acompanhamento da negociação.

Justo. Trabalho deve ser remunerado.

Como eu realmente tinha interesse no imóvel, fiz um pix de mil reais, valor informado por ela como sendo abaixo da média de mercado justamente “por eu já ser cliente do escritório”.

Até aí, tudo alinhado.

O detalhe é que fiz o pagamento numa terça-feira à noite… e, menos de 24 horas depois, os vendedores desistiram da venda do imóvel.

Avisei imediatamente a advogada sobre o cancelamento da negociação.

Ela respondeu tranquilamente, dizendo que entendia a situação e que devolveria integralmente o valor pago, já que o serviço em si não chegou a ser executado.

E foi aí que começou o verdadeiro problema.

Na sexta-feira, data em que cairia mais uma parcela do meu processo trabalhista, ela simplesmente não me avisou sobre o depósito e também não fez o repasse.

Esperei alguns dias porque não gosto de cobrar o óbvio. Acredito que cada profissional conhece suas próprias responsabilidades.

Mas os dias passaram… e nada.

Quando questionei, ouvi que ela estava organizando as contas do escritório e que “assim que pudesse” resolveria.

Fui compreensiva.

Minhas contas daquele mês estavam pagas, então aguardei.

Mas quando já estávamos próximos da terceira parcela e eu voltei a perguntar sobre os valores, recebi um print dizendo que ela só teria dinheiro após determinada data.

Foi aí que comecei a me questionar:

Como funciona a organização financeira de alguns escritórios?

Porque uma coisa é atraso pontual. Outra é utilizar dinheiro de cliente para equilibrar caixa interno enquanto o próprio cliente fica aguardando sem previsão concreta.

Depois de muita insistência, ela finalmente realizou o repasse — mas acompanhado de indiretas e comentários dizendo que eu a havia prejudicado, que ela não havia cobrado consulta e que eu deveria ser mais compreensiva.

Então vamos aos fatos.

📌 O que me chamou atenção nessa situação

  • A consulta inicial foi oferecida gratuitamente por iniciativa dela, diversas vezes.
  • O cancelamento do serviço aconteceu em menos de 24 horas.
  • O valor havia sido prometido como devolução integral.
  • Os repasses trabalhistas já tinham cronograma definido.
  • Em nenhum momento deixei de dialogar ou agir com respeito.

Mesmo assim, bastou eu cobrar um valor que era meu por direito para o clima mudar completamente.

E isso me fez refletir sobre algo importante:

Muitas relações profissionais funcionam perfeitamente… até o momento em que você começa a cobrar transparência.

Relações profissionais também precisam de organização

Essa situação me fez pensar em quantas pessoas acabam enfrentando problemas parecidos por medo de questionar profissionais, contratos ou valores.

Muita gente acredita que advogado, contador, corretor ou qualquer outro profissional liberal está automaticamente acima de questionamentos.

Não está.

Toda relação profissional precisa de:

  • clareza,
  • organização,
  • transparência,
  • comunicação,
  • e responsabilidade financeira.

Principalmente quando envolve dinheiro de terceiros.

Porque confiança profissional não deveria funcionar na base da ansiedade do cliente esperando retorno.

O problema nunca foi só o dinheiro

O mais desgastante nem foi o valor.

Foi a quebra de confiança.

É perceber que enquanto você é compreensivo, paciente e flexível, tudo funciona bem.

Mas no momento em que começa a cobrar organização e responsabilidade, o tratamento muda.

E infelizmente isso acontece em muitos ambientes profissionais.

No fim, fica a lição:

Confiar é importante.
Mas acompanhar, registrar e formalizar tudo é necessário.


📚 Indicação de leitura

Recomendo O Processo, de Franz Kafka.

O livro mostra a sensação angustiante de estar preso em situações burocráticas, confusas e emocionalmente desgastantes, onde você tenta resolver algo simples, mas acaba se sentindo perdido dentro de um sistema que parece nunca funcionar de forma clara.

👉 Confira a edição disponível na Amazon


Atenciosamente,
A Observadora Ácida

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