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Só sou lembrada quando a bucha é grande

 Existe um tipo específico de convocação na minha vida.

Ela nunca começa com:
“Como você está?”

Ela começa com:
“Oi. Preciso que você...”

Meu sogro é a personificação da bondade desprotegida.

Mais de 60 anos.
Sem casa própria.
Sem bens.
Mas com um coração que cabe o mundo — e um talento impressionante para aceitar qualquer coisa que empurrem pra ele.

Fim do ano passado ele apareceu com um celular novo.
Capa. Película.
Nota fiscal mostrando R$150 numa película.

Eu tive um pequeno colapso silencioso.

“Já estava colocado, então eu paguei”, ele disse.

Se alguém oferecer um rim parcelado em 12x, ele considera.

E não é maldade.
É ingenuidade combinada com vendedores que enxergam aposentadoria como meta mensal.

Outro dia surgiu com mais uma situação:

“Preciso que você vá comigo na Pernambucanas resolver um chip.”

Um chip.

Ele já tem um.

Mas aceitaram vender outro.
Que era 29,90.
Ou 140 e pouco.
Ou 200 e tanto.

Nem ele sabe explicar.
E eu tentando extrair informações como se estivesse interrogando testemunha hostil:

— O senhor assinou?
— Assinei.
— Digitou a senha?
— Digitei.

E o que exatamente eu faço com isso?

Não é falta de vontade de ajudar.
Já resolvi inúmeras buchas de operadora de celular.
Mas há situações em que a pessoa está lúcida, assinou, digitou senha… e a única coisa que falta é filtro contra conversa fiada.

E isso ninguém instala.

O verdadeiro problema

Quando ele morava em outra cidade, visitávamos aos domingos na folga.
Quatro horas de estrada entre ida e volta. Não tinha como aprofundar assuntos!

Eu escutava:

“O governo está dando dinheiro.”

Não estava.

Era empréstimo consignado oferecido por telefone.

Gente de má-fé existe aos montes.
E idosos viraram alvo fácil.

Não tem como vigiar 24 horas.
Não tem como blindar alguém que acredita que todo vendedor é amigo.

Talvez nossa última conversa tenha sido produtiva.
Talvez ele tenha entendido que vendedor quer comissão — não o bem-estar dele.

Veremos nos próximos capítulos.

Enquanto isso, sigo aqui.

Guardando conversas.
Guardando comprovantes.
Guardando indignações.

Porque no Brasil, se você não guarda provas, vira personagem da versão dos outros.

E eu me recuso.

Atenciosamente,
A Observadora Ácida

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