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A coxinha que me fez questionar o mundo

 Na cidade vizinha de onde meus pais moram existe uma padaria.

Uma padaria comum. Fachada simples. Nada instagramável.

Mas ali… existe uma coxinha.

E não é qualquer coxinha.

Ela é sequinha.
Nada oleosa.
Super crocante.
O tempero? Digno.
Recheio generoso, equilibrado, sem aquele gosto industrial que parece temperado com arrependimento.

E os sachês?

Marca boa. De verdade.
Ketchup com cor de ketchup.
Maionese com gosto de maionese.
Mostarda que não parece água colorida.

Dá gosto rasgar com os dentes e espalhar onde vai dar a próxima abocanhada.

Na última vez que fui, comi cinco.
Sim, cinco.
E ainda esperei assarem mais para levar para casa.

Sem culpa.
Porque aquilo ali valia um almoço.

E aí eu volto para São Paulo.

Especialmente o centro.

E me pergunto: por que é tão difícil comer um salgado decente?

Você paga.
Morde.
E se arrepende.

Salgado encharcado.
Massa pesada.
Recheio duvidoso.
Sachê transparente de tão ralo.

Tem ketchup que nem vermelho é direito.

E a justificativa invisível parece ser sempre a mesma:
“É muita demanda.”
“É o que dá pra fazer.”
“É mais barato.”

Mas por que mais barato precisa ser pior?

Por que a lógica virou: quanto mais vende, menor a qualidade?

Eu, há anos, evito comer fora.
Quando preciso, procuro algo minimamente saudável.
Se não dá, levo meu lanche de casa.

Porque não faz sentido pagar para passar mal.

E aí vem a reflexão incômoda.

Comida de baixa qualidade é sempre mais acessível.
Ultraprocessado é barato.
Industrializado é abundante.
Natural é caro.
Fresco é luxo.

Só come bem quem pode pagar.

E isso não é teoria política.
É observação prática.

A alimentação piora.
As doenças aumentam.
A vida encurta.

E depois a culpa é individual.

“Você não se cuidou.”

Será mesmo?

Não estou aqui defendendo lado A ou lado B.
Estou expondo o que vejo.

Quando qualidade vira exceção e não regra, alguma coisa está fora do lugar.

Talvez não seja conspiração.
Talvez seja simplesmente mercado.
Lucro acima de tudo.
Margem acima da saúde.
Volume acima da dignidade alimentar.

Mas fica a pergunta:

Se dá para fazer uma coxinha incrível, acessível e honesta numa cidade pequena…
por que nas grandes capitais parece tão difícil?

Enquanto isso, sigo valorizando onde ainda existe capricho.

Porque comida é mais do que produto.
É cuidado.

E cuidado anda raro.

Atenciosamente,
A Observadora Ácida

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