A coragem que só existe na multidão

Aqui estou eu, mais uma vez, contando um desses absurdos cotidianos que insistem em acontecer. E antes que alguém diga “ah, isso acontece com todo mundo”, sim — acontece. Mas nem por isso deixa de ser revoltante.
Fazia muito, mas muito tempo mesmo, que eu não ia a uma feira de rua daquelas raiz: rua fechada, bancas improvisadas, cheiro de pastel, caldo de cana e infância espalhada no ar. Minha mãe veio me visitar e, entre as coisas que ela queria reviver, estava justamente isso — pastel de feira e caldo de cana. Coisas simples. Coisas que aquecem a memória. Eu amo.
Saímos de casa com o novo bebê da família: o pet recém-adotado da minha mãe. Primeira vez dele na rua, primeira vez numa cidade grande, de coleira, com todos os estímulos possíveis. No começo, ficou assustado. Travou. Tivemos que pegá-lo no colo algumas vezes, principalmente quando via outros cachorros. Ele latia bastante — medo, curiosidade, nervosismo, vontade de brincar… quem sabe? Só sei que latia e resmungava como todo filhote que ainda está aprendendo a existir no mundo.
Chegamos à feira, sentamos nas mesas da barraca, bem na ponta, justamente para evitar qualquer transtorno. Ele é pequeno, bebê e extremamente dócil. Tudo estava bem até passar um morador de rua com um cachorro três vezes maior que ele. O latido voltou — dessa vez, claramente nervoso. Peguei o filhote no colo e esperei o homem passar.
Foi então que ouvi, vindo do fundo da multidão, aquela voz típica do ser humano que eu sempre tento evitar encontrar na vida: — “Joga esse cachorro na fritadeira!”
Fingi que não ouvi. Eu só queria um momento bom com minha mãe. Um lanche simples. Um dia leve. Mas não deu tempo. O mesmo imbecil repetiu, mais alto: — “Cachorro chato, joga na fritadeira!”
Pronto. A coragem de longe encontrou plateia. Mandei tomar no €@. Na mesma hora, outro, escondido na massa, gritou um “ooorraaaaa”, jogando lenha na fogueira. A covardia sempre gosta de aplauso.
Convidei a criatura a falar mais perto, se tivesse coragem. Silêncio. Nunca têm. Peito nenhum. Só gritam quando estão protegidos pela multidão, pelo barulho, pela falsa sensação de anonimato.
Se não gosta de barulho, não saia de casa. Arrume um emprego num escritório fechado. A rua é viva. A feira é barulhenta. A vida não vem com botão de silenciar.
Você não sabe o passado daquele animal. Não sabe o que ele viveu antes de ser adotado. Não sabe o que é sobreviver sem defesa. E mesmo assim acha que tem o direito de ofender, diminuir e desejar violência — escondido.
Isso é coragem?
Não.
Isso é covardia socialmente aceita.

📚 Indicação de leitura
Livro: O Mal-Estar na Civilização — Sigmund Freud

Para quem quer entender por que tanta gente só se sente “valente” quando está escondida na multidão, a leitura de O Mal-Estar na Civilização, de Sigmund Freud, é quase obrigatória. O livro escancara como a sociedade reprime impulsos e, ao mesmo tempo, cria válvulas de escape para a agressividade — geralmente direcionada aos mais vulneráveis. Uma leitura desconfortável, porém necessária, para quem ainda acredita que grosseria pública é sinônimo de coragem.

— A Observadora Ácida

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