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O curso milagroso e o emprego que nunca existiu

 Aqui estou eu: fim de faculdade, currículo pronto, coragem na bolsa e aquele otimismo frágil de quem acredita que estudar ainda serve para alguma coisa. 

Procuro vagas na minha área — estágio, PJ, CLT, o nome não importa, desde que venha acompanhado de dignidade.

Uso plataformas de emprego, aquelas que prometem conectar empresas e profissionais. Tudo muito moderno. Tudo muito organizado. Até que recebo uma mensagem:

“Envie seu currículo para: nomedaempresa (arroba) email (ponto) com”.

Sim. Escrito assim.
Como se estivéssemos em 2003.
Como se ninguém soubesse usar o próprio sistema pelo qual está pagando.

A vontade inicial foi rir. A segunda foi chorar. A terceira foi perceber que o problema não é tecnológico — é conceitual. A empresa se cadastra numa plataforma para ver currículos, mas pede que o candidato envie o currículo… fora da plataforma. É tipo entrar num restaurante e pedir delivery do prato que está na sua frente.

Mas ok. Engoli o sarcasmo, respirei fundo e enviei o currículo.

Dias depois, o retorno. A mesma descrição da vaga. Benefícios ótimos. Tudo lindo. Quase emocionante. Até que vem o plot twist digno de roteiro ruim:

“Para seguir no processo, é necessário realizar um curso 100% online. O valor será pago por você, mas será totalmente reembolsado no dia da entrega dos documentos.”

Claro.
Porque empresas sérias terceirizam sua formação… para o seu próprio bolso.
E prometem devolver o dinheiro com a mesma convicção de quem diz “confia”.

A pergunta que fica não é se isso é absurdo. É:
quantas pessoas ainda caem nisso?

O golpe não está só no curso. Está na naturalização do desrespeito. No uso da esperança como isca. Na ideia de que o candidato deve provar valor pagando para trabalhar — enquanto quem oferece a vaga não prova nada.

E depois dizem que os jovens não querem trabalhar.
Talvez só não queiram ser feitos de idiotas.


📚 Indicação de leitura

Ética para Meu Filho, de Fernando Savater, é uma leitura direta e necessária para quem está começando a vida adulta e já percebeu que o mundo funciona com regras mal explicadas.

O autor fala sobre ética sem moralismo, convidando o leitor a pensar, questionar e assumir responsabilidade pelas próprias escolhas — algo cada vez mais raro em tempos de processos seletivos duvidosos, relações superficiais e promessas vazias.

Uma leitura essencial para quem se recusa a normalizar o absurdo.

👉 Confira a edição disponível na Amazon

Este texto faz parte da série “Trabalhar ou Sobreviver?”, onde observo os absurdos normalizados do mercado de trabalho moderno.


Atenciosamente,
A Observadora Ácida

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