O Velhinho Sábio que Jogou Sabedoria no Rio
Estava eu voltando para casa naquele raro momento em que o ônibus parecia até VIP: vazio, silencioso e — pasme — com cheiro neutro. O semáforo fecha, eu olho pela janela e vejo uma cena que não era exatamente inédita, mas sempre surpreendente pela qualidade do protagonista.
Não era um morador de rua, não era alguém “desprovido de civilização”, como muitos adoram dizer enquanto seguram firme seu moralismo de bolso. Era um senhor, desses que o senso comum descreve como “de idade”, “de respeito”, “de sabedoria”… e que geralmente reclamam de tudo: do lixo na rua, da juventude perdida, dos valores que acabaram, do governo, da vida, do clima e, claro, da “falta de educação dos outros”.
Pois bem. Lá estava o sábio. Na mão dele, uma garrafinha PET que — sejamos sinceros — tinha toda a estética suspeita de uma embalagem de cachaça. Ele dá o último gole do que provavelmente era a verdade líquida da noite anterior, rosqueia a tampinha com toda a destreza de quem ainda tem força moral para reclamar do mundo… e, com a elegância de um atleta olímpico da irresponsabilidade, arremessa a garrafa direto no rio ao lado da avenida.
Pluft. A sabedoria flutuando rumo à poluição crônica do país.
E eu te pergunto:
São esses mesmos que discursam sobre o lixo nos alagamentos?
Os que choram pela “falta de consciência do povo”?
Os que apontam o dedo para as novas gerações?
Ah, claro que são.
Quando eu era pequena, meu pai me ensinou que idosos eram sábios.
Hoje, adulta, percebo que… bom, até ele às vezes dá umas derrapadas.
Quem dirá o idosinho do rio, pego no flagra fazendo algo que qualquer adolescente seria crucificado por fazer.
Convenhamos: no fim das contas, não é a idade que traz sabedoria.
É a decência.
E essa, pelo visto, está ficando mais rara que ônibus vazio às seis da tarde.
Atenciosamente,
A Observadora Ácida
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