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Quem paga enxerga... Quem espera adoece

Uma pessoa muito querida por mim estava, desde novembro de 2025, com exames agendados pelo SUS. Entre eles, uma consulta com oftalmologista — daquelas que a gente sabe que demoram, mas acontecem. Ou melhor, deveriam acontecer.

A consulta estava marcada para o dia 23/01/2026. Tudo certo. Tudo confirmado. Tudo dentro do roteiro clássico de quem espera meses por um atendimento básico. Eis que, um dia antes, ligam para cancelar. Motivo? O profissional que realizaria o exame simplesmente “não vai comparecer”.

Pronto. Fim de linha. Dois meses de espera descartados com uma ligação de minutos.

Agora me explica: estamos falando do CEMA. O CEMA. Um hospital de grande porte, referência em oftalmologia. Quer dizer que só existe um único profissional capacitado para realizar esse exame? Nenhum plano B? Nenhuma substituição? Nenhuma alternativa?

Curiosamente — e aqui entra a parte que incomoda — se você atravessar a rua e entrar na loja de óculos ali do lado, dizendo que precisa atualizar a receita para comprar um novo par (pagando, claro), o exame acontece rapidinho. Quase mágico. Um passe de mágica chamado dinheiro.

Coincidência? Difícil acreditar.

Não estamos falando de falha pontual. Estamos falando de um sistema que, na prática, seleciona quem será atendido. Quem pode pagar, anda. Quem depende do SUS, espera. E quando finalmente chega a vez… recebe um “foi mal, tenta de novo”.

O mais cansativo não é só o cancelamento. É a sensação de desrespeito com o tempo, com a saúde e com a dignidade de quem já espera demais. A saúde não deveria funcionar como favor, nem como privilégio.

Mas funciona.

E seguimos observando, anotando e refletindo.

Porque fingir que isso é normal já virou parte do problema.



📖 Para refletir além do absurdo vivido

A situação relatada aqui não é um caso isolado, e o livro A Elite do Atraso, de Jessé Souza, ajuda a entender exatamente o porquê.

A obra expõe como a desigualdade no Brasil não é apenas econômica, mas estrutural — afetando diretamente o acesso a direitos básicos, como a saúde. Ao mostrar como privilégios são naturalizados e como serviços públicos acabam funcionando de forma seletiva, o livro dialoga diretamente com episódios em que quem pode pagar “resolve rápido”, enquanto quem depende do sistema aprende a esperar.

Uma leitura incômoda, necessária e perfeitamente alinhada com este texto.

👉 Confira a edição disponível na Amazon


Atenciosamente,

A Observadora Ácida

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