Pular para o conteúdo principal

Postagens

Quando a memória falha, o carinho precisa permanecer

 Na última quarta-feira, dia 22 de julho, minha avó completou 80 anos. Infelizmente, por causa do trabalho e de um treinamento da empresa logo após o expediente, não consegui visitá-la naquele dia. Mas no sábado fiz questão de ir. E voltei para casa com o coração diferente. Sempre morei praticamente ao lado da minha avó. Na infância, era na casa dela que eu tomava chocolate quente. Assistíamos juntas aos desenhos da TV Cultura. Na adolescência, vieram as novelas. Ela dificilmente perdia um capítulo das novelas da Globo, e muitas vezes eu estava ali, assistindo ao lado dela. Era uma convivência simples. Mas era constante. Depois veio a pandemia. Como aconteceu em tantas famílias, as visitas passaram a ser limitadas para proteger os idosos. Na mesma época, minha avó começou a apresentar sinais de Alzheimer, doença que já existia no histórico da nossa família. A rotina mudou completamente. A preocupação aumentou. As decisões também. Naquele momento, cheguei a sugerir q...

Quando a Justiça demora, quem paga a conta?

 Existe uma frase muito conhecida no Direito que diz: "Justiça tardia é injustiça." Confesso que, ultimamente, ela tem feito cada vez mais sentido para mim. Daqui a poucas semanas, meu processo trabalhista completará um ano. A audiência aconteceu. A decisão foi favorável. Toda a documentação necessária já foi apresentada. O processo encerrou normalmente. E, ainda assim, continuo aguardando uma sentença para a próxima etapa. Receber meu dinheiro! Quem acompanha o blog sabe que já contei algumas partes dessa história. Depois de dois anos dedicados à empresa, desenvolvi problemas de saúde relacionados ao trabalho e acabei sendo desligada. Também relatei aqui as dificuldades que enfrentei com a condução do processo e os transtornos causados por uma situação envolvendo a advogada que representava meu caso.  Já contei aqui como uma situação envolvendo a condução do processo aumentou ainda mais esse desgaste. (Leia o relato completo aqui.) Tudo isso já gerou desgaste suf...

O serviço termina quando o cliente vai embora?

Hoje eu estava fazendo uma das tarefas mais glamourosas da vida adulta: tirando roupa do varal. E, do nada, me veio uma lembrança de quando eu tinha uns 15 anos. A primeira vez que fiz progressiva no cabelo. Quem viveu os anos 2000 provavelmente vai entender a empolgação. Naquela época, cabelo liso era praticamente um sonho nacional. Eu, que sempre tive muito cabelo — e continuo tendo — sonhava em sair do salão com aquele efeito escorrido de comercial de shampoo. Antes disso, meu método de alisamento era outro. Eu e minha mãe fazíamos exatamente como muitas famílias faziam naquela época: usávamos o ferro de passar roupa. Sim, você leu certo. Hoje parece absurdo, mas naquela época era relativamente comum ouvir histórias assim. Quando finalmente consegui fazer a tão sonhada progressiva, minha tia indicou a cabeleireira de confiança dela, em Santo André. Fui com minha mãe. Fui muito bem atendida. O procedimento foi feito normalmente e saí do salão feliz da vida. Poucos dias dep...

Nota fiscal não é favor. É direito!

Quem acompanha o blog sabe que, há alguns meses, resgatei o Ted, o cachorro abandonado em um pedágio.   (Se você ainda não conhece essa história, clique aqui.) Algum tempo depois, ele começou a apresentar alguns problemas de saúde. Fizemos exames, consultas, ultrassom e iniciamos o tratamento. (Essa parte da história também já contei aqui.) Durante todo esse processo, uma coisa ficou muito clara para mim: organização evita dor de cabeça. Sempre controlo tudo o que entra e tudo o que sai da minha casa. Cada gasto. Cada compra. Cada consulta. E, justamente por isso, logo no início do atendimento pedi que todas as despesas fossem acompanhadas da respectiva nota fiscal. A recepcionista foi muito educada e explicou que, no dia do ultrassom, a gerente entraria em contato comigo pelo WhatsApp para solicitar algumas informações necessárias para emitir a nota. Perfeito. Assunto resolvido. Ou pelo menos era o que eu imaginava. Chegou o dia do exame. O Ted fez o ultrassom. ...

A fila invisível da saúde pública

Quem depende do sistema público de saúde aprende uma coisa muito rápido: além de paciência, é preciso ter tempo. Muito tempo. Recentemente, minha esposa precisou realizar uma endoscopia. Depois de um período de espera, finalmente veio o agendamento. Até aí, tudo certo. O que chamou minha atenção foi o local e o horário. Ela foi encaminhada para realizar o exame na Brasilândia, um bairro onde nunca havia estado, com apresentação marcada para 1 hora da manhã . Confesso que nunca tinha visto algo parecido. Não estou questionando a qualidade do atendimento nem dos profissionais de saúde — que, muitas vezes, fazem verdadeiros milagres com a estrutura que têm. A minha reflexão é outra. Será que faz sentido uma pessoa precisar atravessar a cidade durante a madrugada para realizar um exame que exige sedação? Para quem conhece a região, talvez seja tranquilo. Mas imagine alguém que nunca esteve naquele lugar. Imagine quem depende de transporte público. Imagine uma mulher indo sozi...

Quando a tecnologia avança mais rápido que os idosos

Outro dia me peguei pensando em como envelhecer no Brasil exige coragem. Não apenas pelos problemas de saúde, pela aposentadoria apertada ou pela solidão que muitos enfrentam. Mas porque parece que, a cada ano, surgem novas formas de convencer idosos a gastar dinheiro que eles nem deveriam gastar. Meu sogro é aposentado e recebe, há muitos anos, a pensão deixada pela esposa. Infelizmente, durante boa parte da vida, foi uma pessoa boa até demais. Daquelas que tiram da própria boca para ajudar os outros. O problema é que nem todo mundo merece essa confiança. Ao longo dos anos, ele acabou acumulando dores de cabeça que poderiam ter sido evitadas. Uma delas foi quando aceitou financiar um celular em seu nome para um sobrinho. Parcelado. No boleto. O aparelho não durou nem dois meses. Segundo ele, o sobrinho acabou perdendo o celular por envolvimento com drogas. O telefone desapareceu. As parcelas continuaram chegando. Quem já ajudou alguém dessa forma sabe como termina essa ...

O galho quebrado e a educação que não floresceu

 Há alguns dias me peguei pensando em uma cena aparentemente simples, mas que diz muito sobre a sociedade em que estamos vivendo. Na calçada da minha casa existe um manacá. Foi plantado pelos meus pais há alguns anos e, desde então, acompanha as estações como um velho amigo da família. Em média, floresce três vezes por ano e transforma a rua inteira. Quem passa repara. Quem mora aqui já espera pelas flores. Como toda árvore urbana, ele precisa de cuidados. De tempos em tempos faço a poda para que os galhos não alcancem a fiação elétrica. Também havia uma pequena grade branca ao redor do canteiro, apenas para delimitar o espaço e protegê-lo. Até que alguém decidiu que aquilo o incomodava. Não uma vez. Nem duas. Sempre próximo ao dia da coleta de lixo, a grade aparecia torta, deslocada ou caída. Na última vez, arrancaram tudo e simplesmente jogaram no chão. Até hoje continuo me perguntando: Por quê? Ela não atrapalhava a passagem. Não ocupava a calçada. Não impedia ninguém de caminha...