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Quando a memória falha, o carinho precisa permanecer

 Na última quarta-feira, dia 22 de julho, minha avó completou 80 anos.

Infelizmente, por causa do trabalho e de um treinamento da empresa logo após o expediente, não consegui visitá-la naquele dia.

Mas no sábado fiz questão de ir.

E voltei para casa com o coração diferente.

Sempre morei praticamente ao lado da minha avó.

Na infância, era na casa dela que eu tomava chocolate quente.

Assistíamos juntas aos desenhos da TV Cultura.

Na adolescência, vieram as novelas. Ela dificilmente perdia um capítulo das novelas da Globo, e muitas vezes eu estava ali, assistindo ao lado dela.

Era uma convivência simples.

Mas era constante.

Depois veio a pandemia.

Como aconteceu em tantas famílias, as visitas passaram a ser limitadas para proteger os idosos.

Na mesma época, minha avó começou a apresentar sinais de Alzheimer, doença que já existia no histórico da nossa família.

A rotina mudou completamente.

A preocupação aumentou.

As decisões também.

Naquele momento, cheguei a sugerir que fizéssemos um revezamento entre os familiares para que ela pudesse permanecer na própria casa pelo maior tempo possível, com apoio de uma cuidadora durante o dia.

Na época, era assim que eu imaginava que conseguiríamos cuidar dela.

Mas a doença evoluiu.

Hoje, olhando com mais maturidade e entendendo melhor o avanço do Alzheimer, reconheço que uma instituição especializada pode oferecer cuidados que muitas famílias simplesmente não conseguem prestar em casa.

Profissionais preparados fazem diferença.

Ainda assim, existe uma coisa que nenhum lugar substitui.

Presença.

Carinho.

Tempo.

Durante minha visita, outra cena chamou minha atenção.

Um senhor recebia a visita do filho.

O filho estava presente fisicamente.

Mas passava a maior parte do tempo olhando para o celular.

A mãe permanecia ao lado dele, olhando para o vazio.

Aquela imagem ficou na minha cabeça.

Vivemos reclamando da falta de tempo.

Mas, quando finalmente temos tempo para visitar quem amamos, muitas vezes entregamos nossa atenção para uma tela.

O celular pode esperar.

As redes sociais podem esperar.

As mensagens podem esperar.

O tempo... esse não espera.

Minha avó talvez não se lembre de muitos acontecimentos da vida.

Talvez amanhã ela não lembre da minha visita.

Mas, quando me viu, olhou para mim e disse:

— Eu te amo.

Confesso que precisei segurar as lágrimas.

Esperei sair para chorar.

Porque, mesmo quando a memória começa a falhar, o afeto continua encontrando um caminho.

Se você ainda tem seus avós por perto, visite.

Converse.

Segure a mão deles.

Ouça as histórias que talvez você já tenha escutado dezenas de vezes.

Um dia você perceberá que daria tudo para ouvi-las mais uma vez.

Feliz aniversário, vó.

Obrigado por cada chocolate quente, por cada novela compartilhada e por tantos anos fazendo parte da pessoa que sou hoje.

Eu te amo.


📚 Indicação de leitura

A Velhice, de Simone de Beauvoir

Muito além de falar sobre envelhecer, Simone de Beauvoir convida o leitor a refletir sobre como a sociedade enxerga — e muitas vezes invisibiliza — os idosos. É uma leitura sensível e necessária para compreender que envelhecer não significa deixar de precisar de afeto, presença e respeito.

👉 Confira a edição disponível na Amazon


Atenciosamente,

A Observadora Ácida

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