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Quando chega a eleição, chega também a obra?

Sabe aquela sensação de que, quando a eleição começa a se aproximar, algumas coisas que estavam esquecidas há anos finalmente começaram a acontecer?

É curioso.

Durante meses — às vezes anos — uma rua espera pelo asfalto. Uma escola espera por reforma. Um posto de saúde espera por melhorias. Uma praça continua abandonada. Um problema que todo mundo conhece permanece ali, como se fez parte da paisagem.

Então, de repente…

A eleição se aproxima.

E começam as obras.

Muros recebem pintura, ruas são revitalizadas, equipamentos públicos ganham reforma, placas aparecem anunciando investimentos milionários e, de repente, aquilo que parecia impossível durante tanto tempo começa a acontecer.

Coincidência? Pode ser.

Mas será que nós, como cidadãos, deveríamos simplesmente olhar para a obra pronta e agradecer?

Ou deveríamos fazer algumas perguntas antes de decidir nosso voto?

A placa diz quanto foi investido. Mas quem está perguntando o resto?

Uma coisa que sempre me chama atenção é quando vemos uma obra pública acompanhada de uma grande placa anunciando o valor investido.

“Investimento de milhões.”

Bonito. Impactante.

Mas eu, como cidade, gostaria de saber muito mais do que o número escrito na placa.

Quem autorizou?

Qual empresa executou a obra?

Quanto estava previsto inicialmente?

O valor foi alterado durante a execução?

Quando a obra começou?

Qual era o prazo para terminar?

Ela realmente foi concluída?

Quanto custou no final?

E, principalmente:

Essa obra era realmente necessária naquele momento ou existiam problemas mais urgentes esperando por solução?

Porque uma placa pode mostrar o valor de uma obra, mas ela não conta toda a história. E talvez esse seja justamente o problema.

Nós nos acostumamos a enxergar a obra pronta, tirar uma foto e concluir:

“Finalmente fizeram!”

Mas quase nunca paramos de investigar como aquilo aconteceu .

O problema não é fazer obra

Antes que alguém diga que estou reclamando porque fez uma obra, vamos deixar uma coisa bem clara:

obra pública necessária é ótima.

Uma escola reformada é ótima.

Uma unidade de saúde funcionando é ótima.

Uma rua asfaltada depois de anos de aplicação é ótima.

Uma ponte recuperada é ótima.

Uma praça revitalizada pode melhorar a qualidade de vida de toda uma comunidade.

O problema não é a obra.

O problema é quando nós, reunidos, começamos a avaliar uma administração pública apenas pelo que conseguimos enxergar nos últimos meses.

Porque governar não deveria ser uma espécie de reforma de última hora para impressionar o eleitor.

Deveria existir planejamento. E o planejamento não deveria começar quando a eleição começa a aparecer no calendário.

Será que a gente está avaliando o governo inteiro?

Essa talvez seja a pergunta mais importante.

Imagine que determinado político tenha passado anos no poder.

Durante esse período, existiram promessas. Algumas foram cumpridas.

Outras não. Algumas obras. Outras ficaram paradas.

Alguns problemas foram resolvidos. Outros continuam exatamente onde estavam.

Mas aí chega o período eleitoral e aparecem novas obras, novos anúncios, novas inaugurações e uma quantidade enorme de publicidade.

É muito fácil olhar para aquilo e pensar:

“Olha quanta coisa ele está fazendo!”

Mas será que essa é uma análise justa?

Ou estamos olhando apenas para os últimos capítulos de uma história que começou muito antes?

O eleitor precisa aprender a olhar para o histórico.

Não apenas para o que está acontecendo agora.

E aqui está uma coisa que precisamos parar de fazer: Votar apenas pela propaganda.

Não importa se a propaganda está na televisão, no Instagram, no Facebook, em um outdoor, em uma placa enorme na frente de uma obra ou naquele vídeo bonito mostrando uma cidade completamente transformada.

A propaganda existe para mostrar uma narrativa.

Precisamos procurar os fatos. E hoje temos ferramentas para isso.

O próprio Tribunal Superior Eleitoral disponibiliza informações sobre as Eleições 2026, incluindo dados sobre candidaturas, contas eleitorais e outros serviços relacionados ao processo eleitoral.

O DivulgaCandContas, por exemplo, reúne informações sobre candidatos, partidos e contas eleitorais, com dados disponíveis de eleições desde 2004.

Ou seja: não precisamos depender apenas do discurso do candidato.

Podemos pesquisar.

“Mas eu não entendo de política.”

Tudo bem. Você não precisa ser cientista político. Não precisa entender de orçamento público como um especialista. Não precisa passar horas lendo documentos complicados.

Comece pelo básico. Antes de votar, procure saber: O que essa pessoa prometeu? O que ela realmente ofereceu? O que ficou pelo caminho? Quais obras foram iniciadas? Quais foram concluídos? Quais ficaram paradas? Quanto foi gasto? Quais eram as prioridades da população?

Como estavam os serviços públicos durante a gestão? Quais foram os resultados?

E, principalmente:

O que aconteceu durante todo o mandato, e não apenas durante os meses que antecederam a eleição!

Essa diferença é enorme.

Dinheiro público não nasce em árvore

Às vezes parece que estamos falando de dinheiro abstrato.

“Investiram R$ 10 milhões.”

“Investiram R$ 20 milhões.”

“Investiram R$ 50 milhões.”

E seguimos a vida.

Mas esse dinheiro não surgiu magicamente.

É dinheiro público.

E o dinheiro público precisa ser acompanhado.

No âmbito federal, o Portal da Transparência permite que qualquer pessoa consulte informações sobre a utilização de recursos públicos, incluindo gastos, receitas, convênios e outras informações da Administração Pública Federal. O próprio Portal também disponibiliza dados históricos de pagamentos relacionados a compras, contratações e obras realizadas por órgãos e entidades federais.

Existem também portais de transparência estaduais e municipais.

Ou seja: aquela velha frase “não tem como saber” já não deveria ser tão fácil de usar.

tal dê Trabalho.

Talvez algumas informações sejam difíceis de entender.

Talvez seja necessário pesquisar um pouco mais.

Mas existe informação.

E se a obra era necessária, ótimo. Mas e o restante?

É aqui que entra uma questão que considero ainda mais importante.

Não deveríamos escolher um político porque ele fez uma obra bonita .

Deveríamos avaliar o conjunto.

Porque uma cidade não é apenas uma avenida.

Uma cidade também é:

  • educação;
  • segurança;
  • transporte;
  • urbana;
  • moradia;
  • responsabilidade com o dinheiro público.

Uma escola reformada é importante.

Mas e as outras?

Um posto de saúde reformado é importante.

Mas como está o dinheiro?

Uma rua asfaltada é importante.

Mas como está o restante do bairro?

Uma praça bonita é importante.

Mas quantos outros problemas continuam esperando?

É preciso olhar para o todo .

O voto é uma ferramenta que a gente usa uma vez e depois esquece

Talvez esse seja um dos maiores problemas.

Durante a eleição, todo mundo fala de política.

Depois que votamos, muitos simplesmente deixam de acompanhar.

E aí passamos quatro anos reclamando.

Recuperamos o preço das coisas.

Da escola.

Faça o transporte.

Das ruas.

Da falta de investimentos.

Da promessa que não foi cumprida.

Mas nós escolhemos de uma coisa:

o voto não deveria terminar no dia da eleição.

Votar é apenas uma parte da participação política.

Também precisamos acompanhar.

Questionário.

Pesquisa.

Cobrar.

Comparador.

E, quando chegar a próxima eleição, lembre-se.

Porque memória política também é cidadania.

Antes de precisar CONFIRMA, faça uma pequena investigação

Não estou dizendo para você acreditar em um político ou em outro.

Muito menos estou dizendo em quem você deve votar.

Estou dizendo justamente o contrário.

vasculhar por conta própria.

Não escolha alguém porque sua família gosta.

Não escolha porque seu vizinho mandou um vídeo no WhatsApp.

Não escolha porque um influenciador falou.

Não escolha porque apareceu uma obra bonita no seu bairro.

E também não rejeite alguém só porque alguém disse que aquela pessoa é ruim.

Obter informações.

Comparar.

Confira fontes.

Leia questões.

Veja o histórico.

Obter dados oficiais.

Desconfie de informações que parecem boas demais para serem verdade.

O próprio TSE mantém conteúdos específicos ao enfrentamento da desinformação nas eleições, justamente para ajudar o eleitor a identificar e questionar informações potencialmente falsas.

Nós temos poder. Só precisamos aprender a usar.

Talvez o mais triste seja perceber que muitas pessoas acreditam não ter poder nenhum.

“Político é tudo igual.”

“Meu voto não muda nada.”

“Não adianta reclamar.”

“Eles fazem o que querem.”

Mas realmente acreditamos nisso, estamos entregando nosso poder de bandeja.

O eleitor pode pesquisar. Pode acompanhar. Pode cobrar. Pode questionar. Pode lembrar. Pode conversar. Podemos compartilhar informações confiáveis.

E, principalmente, pode votar conscientemente .

Não existe candidato perfeito. Não existe governo perfeito. Não existe administração sem problemas.

Mas existe uma diferença enorme entre votar sem saber absolutamente nada e votar depois de pesquisar o histórico, as propostas, os resultados e as responsabilidades de quem está exigindo o nosso voto.

Então, quando a eleição chegar e a obra também chegar...

Olhe.

Observe.

Mas não parece na aparência.

Leia uma placa.

Mas procure também os documentos.

Veja a instalação.

Mas procure saber quanto custou.

Ouça a Promessa.

Mas procure saber o que foi entregue.

Assista ao vídeo bonito.

Mas procure o histórico.

Porque talvez a pergunta mais importante não seja:

“O que está fazendo agora?”

E sim:

“O que foi feito durante todo esse tempo?”

E também:

“O que ficou de fora?”

“O que foi prometido e não aconteceu?”

“O que a população realmente gosta?”

“E quanto tudo isso custou?”

No final das contas, a eleição não deveria ser um concurso de quem fez a propaganda mais bonita.

Deveria ser um momento de prestação de contas.

E nós, participantes, não deveríamos chegar à urna apenas com um número na cabeça.

Deveríamos chegar com informação.

Porque reclamar depois é fácil.

Difícil — e muito mais importante — é pesquisar antes.

E, convenhamos...

se temos quatro anos para cobrar, também temos quatro anos para prestar atenção.


📚 Indicação de leitura

Política: Para não ser idiota — Mario Sergio Cortella e Renato Janine Ribeiro

Uma reflexão sobre participação política, cidadania e a importância de entender que a vida pública também é responsabilidade de quem vota.

👉 Confira a edição disponível na Amazon


🔎 Onde pesquisar antes de votar?

1. Histórico do candidato
Procure saber quem é, quais cargos já ocupou e qual foi sua atuação.

2. Promessas anteriores
Não olhe apenas para as novas propostas. Veja também o que foi prometido anteriormente e o que realmente aconteceu.

3. Prestação de contas eleitorais
O TSE disponibiliza o DivulgaCandContas , com informações sobre candidaturas e contas eleitorais.

4. Gastos públicos
O Portal da Transparência permite consultar informações sobre recursos e gastos da Administração Pública Federal.

5. Obras públicas
O Obrasgov reúne informações e ferramentas relacionadas às obras públicas federais e à transparência.

6. Informações compartilhadas nas redes sociais
Antes de acreditar e compartilhar uma denúncia, vídeo ou acusação, procure a fonte original e verifique se a informação é verdadeira.


📌 Fontes úteis para utilidade pública:


Atenciosamente,

A Observadora Ácida

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