Pular para o conteúdo principal

O labirinto do Poupatempo e a arte da comunicação inexistente

 Hoje foi dia de ir ao Poupatempo para atualizar o RG. A experiência começou com a clássica e misteriosa logística de agendamento: aparentemente, marcam todos os usuários para o mesmo horário e a ordem de prioridade se resolve na fila, conforme a senha retirada na chegada.

Quando minha senha finalmente foi chamada, fui recebida com um silêncio absoluto — nem um "bom dia". Mas até aí tudo bem, afinal, cada um oferece o que tem a oferecer. 

A diversão começou quando a atendente olhou, reolhou e analisou minha certidão de casamento com uma expressão clara de ponto de interrogação no rosto. Sem saber como prosseguir, chamou a colega do lado para pedir socorro.

Entendo que os funcionários de lá realizam uma variedade enorme de serviços, o que por um lado evita a rotina, mas por outro pode gerar esse tipo de insegurança em processos básicos. O problema é a completa ausência de diálogo. Trocaram de atendente para dar sequência ao meu pedido de RG nada menos que três vezes. Nenhuma delas deu qualquer satisfação, explicou por que levaram meus documentos para outra mesa ou me cumprimentou. Fiquei ali, apenas assistindo ao movimento, sem entender nada, até que simplesmente fui liberada sem saber exatamente o que esperar, se já podia ir embora ou quando o documento ficaria pronto. Comunicação é tudo, mas parece artigo de luxo.

Para fechar com chave de ouro, veio a etapa da atualização cadastral. A funcionária olhou para mim e disparou as perguntas do formulário:

— Qual a sua cor? Qual a cor dos seus olhos? E do seu cabelo?

Gente, a pessoa está parada bem na minha frente, olhando para o meu rosto, e precisa fazer essas perguntas. Entendo que faz parte do protocolo e do sistema de autodeclaração do órgão, mas não deixa de ser cômico. Fiquei pensando: se alguém responder que tem a pele azul, o sistema aceita só porque está escrito no roteiro?

Ir ao serviço público é sempre um lembrete de que, entre formulários automáticos e atendimentos em silêncio, a empatia e a simples informação continuam sendo os passos mais difíceis de serem automatizados.

📚 Indicação de leitura

Gosta de dar risada e refletir sobre as loucuras da burocracia e da vida em sociedade?

Fica a dica de leitura do clássico "O Alienista", de Machado de Assis. Uma sátira genial, curta e ácida sobre as regras rígidas, os protocolos sem sentido e as contradições do comportamento humano quando tenta categorizar tudo à sua volta.

👉 Confira a edição disponível na Amazon 


Atenciosamente,

A Observadora Ácida

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O Velhinho Sábio que Jogou Sabedoria no Rio

Estava eu voltando para casa naquele raro momento em que o ônibus parecia até VIP: vazio, silencioso e — pasme — com cheiro neutro.  O semáforo fecha, eu olho pela janela e vejo uma cena que não era exatamente inédita, mas sempre surpreendente pela qualidade do protagonista . Não era um morador de rua, não era alguém “desprovido de civilização”, como muitos adoram dizer enquanto seguram firme seu moralismo de bolso. Era um senhor , desses que o senso comum descreve como “de idade”, “de respeito”, “de sabedoria”… e que geralmente reclamam de tudo: do lixo na rua, da juventude perdida, dos valores que acabaram, do governo, da vida, do clima e, claro, da “falta de educação dos outros”. Pois bem. Lá estava o sábio. Na mão dele, uma garrafinha PET que — sejamos sinceros — tinha toda a estética suspeita de uma embalagem de cachaça. Ele dá o último gole do que provavelmente era a verdade líquida da noite anterior, rosqueia a tampinha com toda a destreza de quem ainda tem força moral par...

O curso milagroso e o emprego que nunca existiu

 Aqui estou eu: fim de faculdade, currículo pronto, coragem na bolsa e aquele otimismo frágil de quem acredita que estudar ainda serve para alguma coisa.  Procuro vagas na minha área — estágio, PJ, CLT, o nome não importa, desde que venha acompanhado de dignidade. Uso plataformas de emprego, aquelas que prometem conectar empresas e profissionais. Tudo muito moderno. Tudo muito organizado. Até que recebo uma mensagem: “Envie seu currículo para: nomedaempresa (arroba) email (ponto) com”. Sim. Escrito assim. Como se estivéssemos em 2003. Como se ninguém soubesse usar o próprio sistema pelo qual está pagando. A vontade inicial foi rir. A segunda foi chorar. A terceira foi perceber que o problema não é tecnológico — é conceitual. A empresa se cadastra numa plataforma para ver currículos , mas pede que o candidato envie o currículo… fora da plataforma. É tipo entrar num restaurante e pedir delivery do prato que está na sua frente. Mas ok. Engoli o sarcasmo, respirei fundo e e...

A coxinha que me fez questionar o mundo

 Na cidade vizinha de onde meus pais moram existe uma padaria. Uma padaria comum. Fachada simples. Nada instagramável. Mas ali… existe uma coxinha. E não é qualquer coxinha. Ela é sequinha. Nada oleosa. Super crocante. O tempero? Digno. Recheio generoso, equilibrado, sem aquele gosto industrial que parece temperado com arrependimento. E os sachês? Marca boa. De verdade. Ketchup com cor de ketchup. Maionese com gosto de maionese. Mostarda que não parece água colorida. Dá gosto rasgar com os dentes e espalhar onde vai dar a próxima abocanhada. Na última vez que fui, comi cinco. Sim, cinco. E ainda esperei assarem mais para levar para casa. Sem culpa. Porque aquilo ali valia um almoço. E aí eu volto para São Paulo. Especialmente o centro. E me pergunto: por que é tão difícil comer um salgado decente? Você paga. Morde. E se arrepende. Salgado encharcado. Massa pesada. Recheio duvidoso. Sachê transparente de tão ralo. Tem ketchup que nem vermelho é direito....