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Quatro cachorros é muito? Talvez a definição de família precise mudar

 Hoje estava passeando com meus bebês — os de quatro patas, obviamente — quando passei pela pracinha e ouvi uma moça comentar:

Nossa, quantos cachorros!

Eu olhei para os meus.

Um.

Dois.

Três.

Quatro.

Pensei:

Ué... são só quatro. 😂

Tenho dois grandes e dois pequenos.

E olha que nem estavam todos juntos!

Agora fiquei imaginando se ela encontrasse a família completa. Talvez precisasse sentar um pouco antes de processar a informação. 😂

Mas aquela frase ficou na minha cabeça.

Por que quatro cachorros parecem tantos?

Se alguém passa empurrando um carrinho com duas, três ou quatro crianças, a reação provavelmente seria outra.

"Que família bonita."

"Que crianças lindas."

"Como são comportadas."

Mas quando são quatro animais, aparece aquele olhar de espanto.

"Mas tudo isso de cachorro?"

E eu fico pensando:

Por quê?

Por que ainda existe essa ideia de que ter animais em casa é algo secundário, estranho ou exagerado?

Claro que ter vários animais exige responsabilidade.

Não é simplesmente juntar bichos porque são fofos.

Existe alimentação, vacinação, consultas veterinárias, higiene, espaço, passeios, enriquecimento ambiental, atenção, dinheiro e, principalmente, compromisso para a vida toda.

Ter um animal é assumir uma responsabilidade real.

Mas isso não significa que uma pessoa precise desejar ter filhos para considerar sua família completa.

Nem todo mundo sonha em ser pai ou mãe.

E tudo bem.

Algumas pessoas querem filhos.

Outras querem viajar.

Outras querem construir uma carreira.

Outras querem viver com seus animais.

Outras querem uma combinação de tudo isso.

Não existe uma única fórmula para uma vida considerada "completa".

E talvez seja justamente aí que esteja o problema.

A sociedade passou tanto tempo ensinando qual deveria ser o modelo de família que qualquer coisa fora desse padrão ainda causa estranhamento.

Casal sem filhos?

"Mas vocês não querem?"

Pessoa sozinha?

"Você não tem medo de ficar sozinha?"

Pessoa com vários animais?

"Mas precisa de tudo isso?"

Parece que sempre existe alguém pronto para preencher o formulário da vida alheia.

Só esqueceram de perguntar se alguém pediu a avaliação. 😂

E o curioso é que os animais já ocupam um espaço enorme nos lares brasileiros.

Segundo dados da Pesquisa Nacional de Saúde do IBGE, em 2019 havia pelo menos um cachorro em 46,1% dos domicílios brasileiros e pelo menos um gato em 19,3%.

Ou seja: não estamos falando de uma excentricidade de meia dúzia de pessoas.

Estamos falando de milhões de famílias que convivem com animais.

[Leia a pesquisa completa do IBGE]

E existe até um termo utilizado para descrever famílias formadas por pessoas e animais de diferentes espécies: família multiespécie. Estudos e discussões acadêmicas e jurídicas vêm justamente analisando essas relações baseadas em afeto e convivência.

Então, quando alguém olha para mim e pensa:

"Nossa, quatro cachorros!"

Eu penso:

"Sim. E qual é o problema?"

Eles comem.

Fazem bagunça.

Precisam de veterinário.

Querem atenção justamente quando estou ocupada.

Às vezes ocupam mais espaço no sofá do que deveriam.

E provavelmente acreditam que a cama inteira pertence a eles.

Mas também fazem parte da minha rotina.

Estão presentes nos dias bons e nos dias ruins.

Criam vínculos.

Têm personalidade.

Sentem medo, alegria, falta e segurança.

E dependem de nós para praticamente tudo.

Então sim, para mim, são família.

Não porque eu esteja tentando substituir filhos por animais.

Mas porque família não precisa ser uma competição entre espécies.

Eu simplesmente escolhi uma forma diferente de construir a minha.

E sou feliz assim.

Talvez seja isso que as pessoas deveriam aprender a fazer mais:

parar de medir a felicidade dos outros pela régua da própria vida.

Você quer três filhos?

Que ótimo.

Quer nenhum?

Tudo bem.

Quer quatro cachorros?

Também.

Quer quatro filhos e quatro cachorros?

Boa sorte com a conta do supermercado. 😂

No fim, desde que exista responsabilidade, respeito, cuidado e amor, talvez a pergunta mais importante não seja:

"Por que você tem tantos animais?"

Mas:

"Você está feliz com a família que escolheu construir?"

No meu caso, a resposta é simples.

Estou. E eles também parecem estar.


📚 Indicação de leitura

Animais de estimação e a proteção do direito de família: senciência e afeto

A obra discute justamente a relação afetiva entre pessoas e animais e o conceito de animais de estimação como integrantes do núcleo familiar, incluindo a chamada família multiespécie.

👉 "Veja o livro"


Atenciosamente,
A Observadora Ácida

Comentários

  1. Cirúrgico como sempre! É impressionante essa necessidade de enquadrar o afeto dos outros em um padrão pré-estabelecido. Família é onde existe cuidado, responsabilidade e amor — não importa a quantidade de patas ou de pés. Provocação necessária e leitura mais que recomendada!

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