Pular para o conteúdo principal

O cachorro do pedágio e as responsabilidades que vêm depois do resgate

Há alguns meses contei aqui a história de um cachorro idoso abandonado próximo ao pedágio de Mairiporã.

Um daqueles casos que revoltam qualquer pessoa minimamente sensível: alguém decidiu que um animal envelhecido já não merecia mais fazer parte da família e simplesmente o descartou.

Desde então, ele passou cerca de dois meses na chácara dos meus pais. Como já tenho dois cães idosos em casa, inicialmente acreditamos que aquele ambiente mais tranquilo seria ideal para ele se recuperar do abandono e ganhar confiança novamente.

Em abril, tomei a decisão de deixá-lo temporariamente na chácara dos meus pais. Não porque deixei de ser responsável por ele, mas porque precisava dedicar atenção integral a dois cães idosos que também estavam sob meus cuidados. Como ele estava bem e cheio de energia, o espaço da chácara acabou sendo uma ótima alternativa naquele momento. Mesmo à distância, continuei acompanhando sua rotina, alimentação e saúde diariamente.

Recebeu carinho, alimentação adequada, passeios, atenção e, principalmente, algo que muitos animais abandonados perdem: segurança.

Mas a idade começou a cobrar seu preço.

Na semana passada, minha mãe me ligou preocupada. Ele não queria comer. Tentou de tudo: ração, comida natural, petiscos. Nada.

Foram quatro dias praticamente sem alimentação, apenas bebendo bastante água.

Além disso, os olhos, que já apresentavam sinais naturais da idade quando o encontramos, pareciam ainda mais esbranquiçados. Ele começou a esbarrar em móveis e objetos, como se estivesse enxergando menos.

No quinto dia, fui buscá-lo.

A viagem foi difícil.

Ele chorava, latia e chegou a vomitar duas vezes durante o trajeto.

Talvez fosse apenas desconforto.

Talvez fosse medo.

Talvez um cachorro que já foi abandonado uma vez tenha dificuldade para entender quando está apenas mudando de lugar e não sendo abandonado novamente.

Durante todo o caminho conversei com ele, fiz carinho e expliquei que estávamos indo passear.

Pode parecer bobagem para algumas pessoas.

Mas quem convive com animais sabe que eles entendem muito mais do que imaginamos.

Chegando em casa, ele aceitou a janta normalmente.

Na segunda-feira já estávamos no veterinário.

Começaram os exames.

A primeira suspeita era diabetes, principalmente pela alteração no comportamento e pelo aumento no consumo de água.

Graças a Deus, os exames descartaram essa possibilidade.

O sangue foi enviado para análise e, no dia seguinte, retornamos para realizar um ultrassom.

Foi quando surgiu o primeiro alerta importante.

Como ele nunca havia sido castrado, foi identificado um nódulo em um dos testículos.

A recomendação veterinária foi imediata: castração assim que sua condição clínica permitir.

E aqui vale uma pausa importante.

Muitas pessoas ainda enxergam a castração apenas como forma de evitar filhotes.

Mas ela também é uma medida preventiva de saúde.

Enquanto acompanhava esse caso, minha mãe também estava cuidando de outra cachorrinha abandonada nas proximidades da casa dela, apresentando uma mama extremamente inchada, com suspeita de tumor mamário.

São situações diferentes, mas que reforçam a mesma mensagem: prevenção importa.

Castrar não é apenas controlar reprodução. É reduzir riscos de diversas doenças que podem surgir ao longo da vida.

Os exames também revelaram alterações hepáticas.

Agora nosso foco é tratar o fígado antes de qualquer procedimento cirúrgico.

E foi justamente durante essa investigação que percebemos outro problema.

A alimentação.

Quando o resgatamos, ele passou os primeiros dias rejeitando ração.

Durante os vômitos que teve no carro, era possível identificar restos de alimentos humanos.

Inclusive, um forte cheiro de esfihas.

Tudo indica que passou boa parte da vida sendo alimentado com comida de gente.

E aqui está outro alerta importante para quem ama seus animais.

Cães não precisam apenas comer.

Precisam comer corretamente.

Assim como nós, eles possuem necessidades nutricionais específicas.

Nem toda comida humana faz bem para um cachorro.

Nem toda ração serve para qualquer fase da vida.

Idade, porte, condição clínica e rotina influenciam diretamente na alimentação adequada.

Hoje complementamos sua alimentação com orientação veterinária, utilizando opções apropriadas para pets, sempre respeitando suas necessidades.

Enquanto isso, seguimos com os passeios.

Aliás, outra lição que ele me ensinou.

Muitas pessoas acreditam que um bom passeio é aquele em que o cachorro anda sem parar por uma hora.

Nem sempre.

Para um cão, especialmente um idoso, explorar o ambiente é tão importante quanto caminhar.

Cheirar árvores.

Investigar cantos.

Descobrir novos aromas.

Observar o movimento.

Tudo isso faz parte do enriquecimento ambiental e do bem-estar animal.

Às vezes, quinze minutos permitindo que o cachorro explore o mundo ao seu ritmo valem mais do que uma hora inteira sendo arrastado pela coleira.

Na próxima semana ele realizará um ecocardiograma.

Por ser idoso, qualquer procedimento exige ainda mais cautela.

A expectativa é que, após o tratamento hepático, possamos finalmente realizar a castração e proporcionar mais qualidade de vida para essa nova fase.

Por enquanto, seguimos um dia de cada vez.

Porque resgatar um animal não termina quando ele sai da rua.

Na verdade, é exatamente aí que começa a responsabilidade.


📚 Indicação de leitura

O Encantador de Cães — Cesar Millan

Uma leitura acessível para quem deseja compreender melhor comportamento canino, necessidades emocionais dos cães e a importância de uma convivência equilibrada e responsável entre tutores e animais.

Saiba mais: O Encantador de Cães


Atenciosamente,

A Observadora Ácida

Comentários

  1. - Conheci o seu blog há pouco tempo e não lembro de ter deixado um comentário. Te confesso que com o caminho da leitura, esperava um final para o doguinho nada legal, mas que bom que ele está ficando bem, que o melhor ele está recebendo: o seu carinho e amor. Tenho uma gatinha de um pouco mais de 1 ano e morro de saudade dela, pois mudei de estado e ainda não a trouxe. Fico com muito receio, mas quero muito ela aqui do meu lado.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito obrigada pelo seu comentário! 😊

      Confesso que, durante aqueles dias sem ele comer, eu também comecei a imaginar cenários nada animadores. Felizmente, ele resolveu nos dar um susto daqueles e depois mostrar que ainda tem muita vontade de passear, cheirar cada árvore da rua e comandar os próprios passeios como um verdadeiro senhorzinho teimoso. ❤️

      Fico feliz que tenha encontrado o blog e, principalmente, que tenha dedicado um tempo para comentar. Quem escreve acaba falando sozinho por muito tempo e receber um retorno assim aquece o coração.

      Sobre a sua gatinha, entendo perfeitamente essa saudade. Quem convive com um animal sabe que eles deixam de ser apenas pets e viram parte da família. Espero que em breve vocês consigam se reencontrar e que a adaptação aconteça da forma mais tranquila possível.

      E continue por aqui! A vida insiste em me fornecer material para novas observações ácidas quase diariamente, então histórias não faltam. 😅

      Um abraço e um carinho especial para sua gatinha!

      — A Observadora Ácida

      Excluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

O Velhinho Sábio que Jogou Sabedoria no Rio

Estava eu voltando para casa naquele raro momento em que o ônibus parecia até VIP: vazio, silencioso e — pasme — com cheiro neutro.  O semáforo fecha, eu olho pela janela e vejo uma cena que não era exatamente inédita, mas sempre surpreendente pela qualidade do protagonista . Não era um morador de rua, não era alguém “desprovido de civilização”, como muitos adoram dizer enquanto seguram firme seu moralismo de bolso. Era um senhor , desses que o senso comum descreve como “de idade”, “de respeito”, “de sabedoria”… e que geralmente reclamam de tudo: do lixo na rua, da juventude perdida, dos valores que acabaram, do governo, da vida, do clima e, claro, da “falta de educação dos outros”. Pois bem. Lá estava o sábio. Na mão dele, uma garrafinha PET que — sejamos sinceros — tinha toda a estética suspeita de uma embalagem de cachaça. Ele dá o último gole do que provavelmente era a verdade líquida da noite anterior, rosqueia a tampinha com toda a destreza de quem ainda tem força moral par...

O curso milagroso e o emprego que nunca existiu

 Aqui estou eu: fim de faculdade, currículo pronto, coragem na bolsa e aquele otimismo frágil de quem acredita que estudar ainda serve para alguma coisa.  Procuro vagas na minha área — estágio, PJ, CLT, o nome não importa, desde que venha acompanhado de dignidade. Uso plataformas de emprego, aquelas que prometem conectar empresas e profissionais. Tudo muito moderno. Tudo muito organizado. Até que recebo uma mensagem: “Envie seu currículo para: nomedaempresa (arroba) email (ponto) com”. Sim. Escrito assim. Como se estivéssemos em 2003. Como se ninguém soubesse usar o próprio sistema pelo qual está pagando. A vontade inicial foi rir. A segunda foi chorar. A terceira foi perceber que o problema não é tecnológico — é conceitual. A empresa se cadastra numa plataforma para ver currículos , mas pede que o candidato envie o currículo… fora da plataforma. É tipo entrar num restaurante e pedir delivery do prato que está na sua frente. Mas ok. Engoli o sarcasmo, respirei fundo e e...

A coxinha que me fez questionar o mundo

 Na cidade vizinha de onde meus pais moram existe uma padaria. Uma padaria comum. Fachada simples. Nada instagramável. Mas ali… existe uma coxinha. E não é qualquer coxinha. Ela é sequinha. Nada oleosa. Super crocante. O tempero? Digno. Recheio generoso, equilibrado, sem aquele gosto industrial que parece temperado com arrependimento. E os sachês? Marca boa. De verdade. Ketchup com cor de ketchup. Maionese com gosto de maionese. Mostarda que não parece água colorida. Dá gosto rasgar com os dentes e espalhar onde vai dar a próxima abocanhada. Na última vez que fui, comi cinco. Sim, cinco. E ainda esperei assarem mais para levar para casa. Sem culpa. Porque aquilo ali valia um almoço. E aí eu volto para São Paulo. Especialmente o centro. E me pergunto: por que é tão difícil comer um salgado decente? Você paga. Morde. E se arrepende. Salgado encharcado. Massa pesada. Recheio duvidoso. Sachê transparente de tão ralo. Tem ketchup que nem vermelho é direito....