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Só sou lembrada quando a bucha é grande

 Existe um tipo específico de convocação na minha vida. Ela nunca começa com: “Como você está?” Ela começa com: “Oi. Preciso que você...” Meu sogro é a personificação da bondade desprotegida. Mais de 60 anos. Sem casa própria. Sem bens. Mas com um coração que cabe o mundo — e um talento impressionante para aceitar qualquer coisa que empurrem pra ele. Fim do ano passado ele apareceu com um celular novo. Capa. Película. Nota fiscal mostrando R$150 numa película. Eu tive um pequeno colapso silencioso. “Já estava colocado, então eu paguei”, ele disse. Se alguém oferecer um rim parcelado em 12x, ele considera. E não é maldade. É ingenuidade combinada com vendedores que enxergam aposentadoria como meta mensal. Outro dia surgiu com mais uma situação: “Preciso que você vá comigo na Pernambucanas resolver um chip.” Um chip. Ele já tem um. Mas aceitaram vender outro. Que era 29,90. Ou 140 e pouco. Ou 200 e tanto. Nem ele sabe explicar. E eu tentando extrair informações como s...

O Brasil não é para amadores (e muito menos para quem guarda conversa)

 Fui checar o andamento do processo contra a advogada. Sim, aquela mesma. A do primeiro capítulo dessa novela jurídica não solicitada. E descobri algo fascinante: Segundo ela, eu estou mentindo. Eu, que pedi meu dinheiro com paciência. Eu, que esperei. Eu, que conversei. Eu, que insisti educadamente antes de procurar meus direitos. Segundo ela, eu bloqueei desde o início e por isso ela não fez os repasses faltantes. Ah, querida. O WhatsApp não mente. Tenho as conversas. Tenho os áudios. Inclusive aquele em que você diz que devolveria 100% do valor do segundo serviço jurídico que não foi feito — porque eu cancelei em menos de 24h. Em nenhum momento foi falado sobre “taxa por perguntas”. Muito pelo contrário. “Você pode perguntar, você já é cliente do escritório.” Está gravado. Mas agora, curiosamente, a narrativa mudou. E o mais interessante? Essa mesma advogada já trocou de sócios várias vezes. Pessoa próxima a mim relata cobranças duplicadas, parcelas já pagas que não f...

Entre receitas sem assinatura e agendas inexistentes: o caos silencioso do atendimento público

Duas semanas sem ir à academia. Tudo por conta de uma mini cirurgia. Mini mesmo. Mas o terrorismo psicológico materno foi tão convincente que obedeci rigorosamente: nada de esforço, nada de peso, nada de inventar moda, nada de “já estou bem”. Resultado? O corpo parado. A mente inquieta. E aquela culpa clássica de quem treina e começa a sentir que o sedentarismo de quinze dias já virou aposentadoria física. Mas hoje finalmente voltei. E como o universo claramente trabalha com roteiros irônicos, meu remédio acabou justamente no fim de semana. Pensei: “Sem problemas. Pós-treino passo no posto, pego receita nova e sigo a vida.” Ingenuidade minha. O paciente precisa ser pontual. O sistema nunca. Cheguei no posto de saúde e a atendente, com a serenidade de quem anuncia previsão do tempo, me informou: — “Volta às 14h para passar com a médica nova.” Nova médica. Nova receita. Nova esperança. Voltei no horário. Ou melhor: antes do horário, porque o paciente sempre pr...

A coragem que só existe na multidão

Aqui estou eu, mais uma vez, contando um desses absurdos cotidianos que insistem em acontecer. E antes que alguém diga “ah, isso acontece com todo mundo”, sim — acontece. Mas nem por isso deixa de ser revoltante. Fazia muito, mas muito tempo mesmo, que eu não ia a uma feira de rua daquelas raiz: rua fechada, bancas improvisadas, cheiro de pastel, caldo de cana e infância espalhada no ar. Minha mãe veio me visitar e, entre as coisas que ela queria reviver, estava justamente isso — pastel de feira e caldo de cana. Coisas simples. Coisas que aquecem a memória. Eu amo. Saímos de casa com o novo bebê da família: o pet recém-adotado da minha mãe. Primeira vez dele na rua, primeira vez numa cidade grande, de coleira, com todos os estímulos possíveis. No começo, ficou assustado. Travou. Tivemos que pegá-lo no colo algumas vezes, principalmente quando via outros cachorros. Ele latia bastante — medo, curiosidade, nervosismo, vontade de brincar… quem sabe? Só sei que latia e resmungava como todo ...

Quem paga enxerga... Quem espera adoece!

Uma pessoa muito querida por mim estava, desde novembro de 2025, com exames agendados pelo SUS. Entre eles, uma consulta com oftalmologista — daquelas que a gente sabe que demoram, mas acontecem. Ou melhor, deveriam acontecer. A consulta estava marcada para o dia 23/01/2026. Tudo certo. Tudo confirmado. Tudo dentro do roteiro clássico de quem espera meses por um atendimento básico. Eis que, um dia antes, ligam para cancelar. Motivo? O profissional que realizaria o exame simplesmente “não vai comparecer”. Pronto. Fim de linha. Dois meses de espera descartados com uma ligação de minutos. Agora me explica: estamos falando do CEMA. O CEMA. Um hospital de grande porte, referência em oftalmologia. Quer dizer que só existe um único profissional capacitado para realizar esse exame? Nenhum plano B? Nenhuma substituição? Nenhuma alternativa? Curiosamente — e aqui entra a parte que incomoda — se você atravessar a rua e entrar na loja de óculos ali do lado, dizendo que precisa atualizar a receita ...

Educação sob demanda

Conheço essa pessoa há anos. Daquelas que aparecem, somem, reaparecem — sempre quando convém. Em 2020, auge da pandemia, ela me procurou. Queria aprender a fazer dinheiro render. Investir. “Nem que fosse pouco”, dizia. Engraçado como, quando o aperto aperta, todo mundo lembra de quem estudou, de quem se dedicou, de quem sabe explicar. Na época, eu já estava havia dois anos aprendendo a investir — pouco a pouco, como sempre fiz. Ajudei. Abri para ela uma conta em uma corretora de investimentos , expliquei que transferências precisam ser de conta para conta de mesma titularidade , fiz tudo certo. Do jeito certo. Porque gosto das coisas certas. Desde então? Silêncio. Nem comigo, nem com a minha mãe — que mora na mesma cidade — ela mantém contato. Só aparece quando precisa. Educação sob demanda. Afeto sob demanda. Conveniência pura. Pois bem. Ano novo. Família reunida. Mesa cheia, conversa boa. E eis que ela manda mensagem para minha mãe perguntando se ela estava disponível para u...

Entre o pedágio e a indiferença

Lá estava eu voltando de viagem, atravessando o pedágio da cidade de Mairiporã (MG), quando a cena me fez frear a alma: três carros tentando encurralar um cachorro no canto da rodovia. Desci do carro perguntando o que havia acontecido, se precisavam de ajuda. Silêncio. Três mulheres em volta do animal, mas ninguém encostava. Não por agressividade do cachorro — ele não rosnava, não mostrava os dentes. Estava apenas apavorado. O medo ali não era dele. Era humano. Ou talvez fosse nojo disfarçado de cautela. Foi um homem, no carro ao lado, quem finalmente explicou: — Um carro acabou de passar pela cancela do pedágio e jogou o cachorro pela janela. Sim. Jogou. Como quem se livra de um lixo inconveniente. Como tenho pets, carrego uma guia no carro. Peguei, desci e fui tentar segurá-lo. Enquanto isso, perguntava: alguém viu a placa? Ninguém viu. Estamos sempre tão distraídos — até quando o crime acontece diante dos nossos olhos. Pedi ajuda à senhora que confirmou ter visto o abandono. Sugeri ...