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A coragem que só existe na multidão

Aqui estou eu, mais uma vez, contando um desses absurdos cotidianos que insistem em acontecer. E antes que alguém diga “ah, isso acontece com todo mundo”, sim — acontece. Mas nem por isso deixa de ser revoltante. Fazia muito, mas muito tempo mesmo, que eu não ia a uma feira de rua daquelas raiz: rua fechada, bancas improvisadas, cheiro de pastel, caldo de cana e infância espalhada no ar. Minha mãe veio me visitar e, entre as coisas que ela queria reviver, estava justamente isso — pastel de feira e caldo de cana. Coisas simples. Coisas que aquecem a memória. Eu amo. Saímos de casa com o novo bebê da família: o pet recém-adotado da minha mãe. Primeira vez dele na rua, primeira vez numa cidade grande, de coleira, com todos os estímulos possíveis. No começo, ficou assustado. Travou. Tivemos que pegá-lo no colo algumas vezes, principalmente quando via outros cachorros. Ele latia bastante — medo, curiosidade, nervosismo, vontade de brincar… quem sabe? Só sei que latia e resmungava como todo ...

Quem paga enxerga... Quem espera adoece!

Uma pessoa muito querida por mim estava, desde novembro de 2025, com exames agendados pelo SUS. Entre eles, uma consulta com oftalmologista — daquelas que a gente sabe que demoram, mas acontecem. Ou melhor, deveriam acontecer. A consulta estava marcada para o dia 23/01/2026. Tudo certo. Tudo confirmado. Tudo dentro do roteiro clássico de quem espera meses por um atendimento básico. Eis que, um dia antes, ligam para cancelar. Motivo? O profissional que realizaria o exame simplesmente “não vai comparecer”. Pronto. Fim de linha. Dois meses de espera descartados com uma ligação de minutos. Agora me explica: estamos falando do CEMA. O CEMA. Um hospital de grande porte, referência em oftalmologia. Quer dizer que só existe um único profissional capacitado para realizar esse exame? Nenhum plano B? Nenhuma substituição? Nenhuma alternativa? Curiosamente — e aqui entra a parte que incomoda — se você atravessar a rua e entrar na loja de óculos ali do lado, dizendo que precisa atualizar a receita ...

Educação sob demanda

Conheço essa pessoa há anos. Daquelas que aparecem, somem, reaparecem — sempre quando convém. Em 2020, auge da pandemia, ela me procurou. Queria aprender a fazer dinheiro render. Investir. “Nem que fosse pouco”, dizia. Engraçado como, quando o aperto aperta, todo mundo lembra de quem estudou, de quem se dedicou, de quem sabe explicar. Na época, eu já estava havia dois anos aprendendo a investir — pouco a pouco, como sempre fiz. Ajudei. Abri para ela uma conta em uma corretora de investimentos , expliquei que transferências precisam ser de conta para conta de mesma titularidade , fiz tudo certo. Do jeito certo. Porque gosto das coisas certas. Desde então? Silêncio. Nem comigo, nem com a minha mãe — que mora na mesma cidade — ela mantém contato. Só aparece quando precisa. Educação sob demanda. Afeto sob demanda. Conveniência pura. Pois bem. Ano novo. Família reunida. Mesa cheia, conversa boa. E eis que ela manda mensagem para minha mãe perguntando se ela estava disponível para u...

Entre o pedágio e a indiferença

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Lá estava eu voltando de viagem, atravessando o pedágio da cidade de Mairiporã (MG), quando a cena me fez frear a alma: três carros tentando encurralar um cachorro no canto da rodovia. Desci do carro perguntando o que havia acontecido, se precisavam de ajuda. Silêncio. Três mulheres em volta do animal, mas ninguém encostava. Não por agressividade do cachorro — ele não rosnava, não mostrava os dentes. Estava apenas apavorado. O medo ali não era dele. Era humano. Ou talvez fosse nojo disfarçado de cautela. Foi um homem, no carro ao lado, quem finalmente explicou: — Um carro acabou de passar pela cancela do pedágio e jogou o cachorro pela janela. Sim. Jogou. Como quem se livra de um lixo inconveniente. Como tenho pets, carrego uma guia no carro. Peguei, desci e fui tentar segurá-lo. Enquanto isso, perguntava: alguém viu a placa? Ninguém viu. Estamos sempre tão distraídos — até quando o crime acontece diante dos nossos olhos. Pedi ajuda à senhora que confirmou ter visto o abandono. Sugeri ...

O curso milagroso e o emprego que nunca existiu

 Aqui estou eu: fim de faculdade, currículo pronto, coragem na bolsa e aquele otimismo frágil de quem acredita que estudar ainda serve para alguma coisa. Procuro vagas na minha área — estágio, PJ, CLT, o nome não importa, desde que venha acompanhado de dignidade. Uso plataformas de emprego, aquelas que prometem conectar empresas e profissionais. Tudo muito moderno. Tudo muito organizado. Até que recebo uma mensagem: “Envie seu currículo para: nomedaempresa (arroba) email (ponto) com”. Sim. Escrito assim. Como se estivéssemos em 2003. Como se ninguém soubesse usar o próprio sistema pelo qual está pagando. A vontade inicial foi rir. A segunda foi chorar. A terceira foi perceber que o problema não é tecnológico — é conceitual. A empresa se cadastra numa plataforma para ver currículos , mas pede que o candidato envie o currículo… fora da plataforma. É tipo entrar num restaurante e pedir delivery do prato que está na sua frente. Mas ok. Engoli o sarcasmo, respirei fundo e enviei ...

O Velhinho Sábio que Jogou Sabedoria no Rio

 Estava eu voltando para casa naquele raro momento em que o ônibus parecia até VIP: vazio, silencioso e — pasme — com cheiro neutro. O semáforo fecha, eu olho pela janela e vejo uma cena que não era exatamente inédita, mas sempre surpreendente pela qualidade do protagonista . Não era um morador de rua, não era alguém “desprovido de civilização”, como muitos adoram dizer enquanto seguram firme seu moralismo de bolso. Era um senhor , desses que o senso comum descreve como “de idade”, “de respeito”, “de sabedoria”… e que geralmente reclamam de tudo: do lixo na rua, da juventude perdida, dos valores que acabaram, do governo, da vida, do clima e, claro, da “falta de educação dos outros”. Pois bem. Lá estava o sábio. Na mão dele, uma garrafinha PET que — sejamos sinceros — tinha toda a estética suspeita de uma embalagem de cachaça. Ele dá o último gole do que provavelmente era a verdade líquida da noite anterior, rosqueia a tampinha com toda a destreza de quem ainda tem força moral par...

O sorriso que ninguém devolve

 Hoje precisei ir a uma consulta. Nada demais — só mais uma daquelas peregrinações onde o cansaço emocional chega antes da gente. Assim que cheguei, a urgência bateu: banheiro. Sempre aquela aventura antropológica de descobrir se o espaço é individual, coletivo, misto, interditado ou se vai me surpreender com algo pior que a própria consulta. Bati na porta. Abri. E lá estava uma senhora, saindo. Ela me olhou. Eu a olhei. E, por reflexo — talvez por teimosia — eu sorri. Sim, eu sorrio. Ainda tenho essa mania. Essa falha de fábrica, talvez. Esse defeito humano que insiste em acreditar que gentileza ainda conversa com alguém. Mas a senhora… Ah, a senhora me devolveu um olhar. Um olhar vazio, quase administrativo: “não tenho tempo para emoções, querida” . Nem um canto de boca levantado, nem um micro gesto, nada. Só aquele silêncio urbano que diz “não me envolva, eu só existo”. E eu ali, segurando meu sorriso como quem segura uma mala que ninguém ajudou a carregar. Às veze...