Manual do fracasso: como administrar uma empresa do jeito errado
Esses dias eu estava vendo aqueles vídeos de “flagra” da internet — aqueles que fazem a gente questionar se ainda existe bom senso no ser humano.
Até que lembrei de um antigo trabalho meu.
Entrei em uma “empresa” — tem CNPJ, então teoricamente é uma empresa, né? Mas daquelas que não conhecem muito bem palavras como lei, padrão, organização… respeito então, nem se fala.
O tempo foi passando, e como todo mundo que precisa trabalhar, você aprende rápido. Me adaptei. Meu cargo? Vender. Vender para adegas, restaurantes, botecos… vender.
Só que tinha um detalhe curioso.
Tudo — absolutamente tudo — precisava passar pela patroa.
Preço? Ela.
Desconto? Ela.
Condição? Ela.
E, claro, ela nunca estava disponível quando você precisava negociar.
Agora me explica: como se vende sem negociar?
A gente tinha que adivinhar o humor do dia. Era quase um jogo: “será que hoje a dona quer trabalhar?”
Porque sem falar com ela… não tinha venda.
E aí você percebe: não é falta de funcionário competente — é falta de gestão mesmo.
E não para por aí.
O estoque?
Uma verdadeira aventura.
Nunca era certo o que tinha disponível. Não existia controle. Você precisava literalmente entrar no meio do galpão e procurar produto pra ver se tinha ou não.
Imagina vender assim.
Você oferece, negocia, fecha… e depois torce pra existir o produto.
E a entrega?
Outro espetáculo.
Os carros só saíam quando estavam completamente cheios — afinal, precisava “economizar gasolina”.
Enquanto isso, clientes esperando horas.
E você?
Sendo bombardeada no telefone por quem comprou e não recebeu.
Porque, claro, na hora de cobrar, ninguém lembra da gestão. Só de quem vendeu.
E o ambiente?
Precário é elogio.
A “cozinha” era um espetáculo à parte: mofo, sujeira e, de brinde, ratos. Comecei a almoçar em casa, porque, sinceramente, tinha limite.
Com o tempo, pedi para trabalhar no escritório dela — mais silêncio, mais foco. E foi aí que entendi o verdadeiro jogo.
Ela me usava para criar rivalidade entre as vendedoras.
“Fulana vendeu isso…”
“A outra já fechou aquilo…”
Jogava uma contra a outra pra criar competição.
Pra mim? Desnecessário.
Mas se alguém gosta desse tipo de ambiente… bom proveito.
Eu gosto de trabalhar, não de participar de reality show corporativo.
Aí veio o auge.
Seis meses lá dentro — seis — e nada de registro.
Do nada, de um dia para o outro:
“Traga seus documentos.”
Ok.
Ela deu o dinheiro do exame e da passagem. Fui fazer. Como era perto, fui a pé. Na volta, peguei ônibus — calor, cansaço, o mínimo de dignidade.
Entreguei tudo.
E aí… o surto.
Ela achou ruim eu ter usado parte do dinheiro para voltar de ônibus.
Sério.
Querida… você quer ser patroa? Ter empresa?
Então estuda.
Funcionário registrado tem custo. Passagem, exame, obrigação legal.
Não é favor. É o mínimo.
Detalhe: essa mesma pessoa que reclamava disso era a mesma que chegava atrasada todos os dias, deixando cliente esperando na porta, no sol, sem saber se o lugar ia abrir.
Comprometimento? Zero.
No mesmo dia (ou no seguinte, porque sinceramente já nem fazia diferença), pedi para avisarem quanto tempo ela precisaria para arrumar outra pessoa.
Porque eu?
Não ia ficar.
A resposta veio rápida:
“Ela disse que não precisa… é só não vir mais.”
Perfeito.
Uma das melhores notícias que já recebi.
Saí sem olhar pra trás.
Porque tem lugar que não é emprego — é livramento.
📚 Indicação de leitura
Se esse tipo de “gestão” te parece familiar, recomendo A Revolução dos Bichos, de George Orwell.
Um livro ácido, direto e desconfortável, que mostra como liderança ruim vira abuso rapidamente — e como sistemas mal geridos sempre acabam prejudicando quem está na base.
Atenciosamente,
A Observadora Ácida
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