Postagens

Mostrando postagens de dezembro, 2025

Entre o pedágio e a indiferença

Imagem
Lá estava eu voltando de viagem, atravessando o pedágio da cidade de Mairiporã (MG), quando a cena me fez frear a alma: três carros tentando encurralar um cachorro no canto da rodovia. Desci do carro perguntando o que havia acontecido, se precisavam de ajuda. Silêncio. Três mulheres em volta do animal, mas ninguém encostava. Não por agressividade do cachorro — ele não rosnava, não mostrava os dentes. Estava apenas apavorado. O medo ali não era dele. Era humano. Ou talvez fosse nojo disfarçado de cautela. Foi um homem, no carro ao lado, quem finalmente explicou: — Um carro acabou de passar pela cancela do pedágio e jogou o cachorro pela janela. Sim. Jogou. Como quem se livra de um lixo inconveniente. Como tenho pets, carrego uma guia no carro. Peguei, desci e fui tentar segurá-lo. Enquanto isso, perguntava: alguém viu a placa? Ninguém viu. Estamos sempre tão distraídos — até quando o crime acontece diante dos nossos olhos. Pedi ajuda à senhora que confirmou ter visto o abandono. Sugeri ...

O curso milagroso e o emprego que nunca existiu

 Aqui estou eu: fim de faculdade, currículo pronto, coragem na bolsa e aquele otimismo frágil de quem acredita que estudar ainda serve para alguma coisa. Procuro vagas na minha área — estágio, PJ, CLT, o nome não importa, desde que venha acompanhado de dignidade. Uso plataformas de emprego, aquelas que prometem conectar empresas e profissionais. Tudo muito moderno. Tudo muito organizado. Até que recebo uma mensagem: “Envie seu currículo para: nomedaempresa (arroba) email (ponto) com”. Sim. Escrito assim. Como se estivéssemos em 2003. Como se ninguém soubesse usar o próprio sistema pelo qual está pagando. A vontade inicial foi rir. A segunda foi chorar. A terceira foi perceber que o problema não é tecnológico — é conceitual. A empresa se cadastra numa plataforma para ver currículos , mas pede que o candidato envie o currículo… fora da plataforma. É tipo entrar num restaurante e pedir delivery do prato que está na sua frente. Mas ok. Engoli o sarcasmo, respirei fundo e enviei ...

O Velhinho Sábio que Jogou Sabedoria no Rio

 Estava eu voltando para casa naquele raro momento em que o ônibus parecia até VIP: vazio, silencioso e — pasme — com cheiro neutro. O semáforo fecha, eu olho pela janela e vejo uma cena que não era exatamente inédita, mas sempre surpreendente pela qualidade do protagonista . Não era um morador de rua, não era alguém “desprovido de civilização”, como muitos adoram dizer enquanto seguram firme seu moralismo de bolso. Era um senhor , desses que o senso comum descreve como “de idade”, “de respeito”, “de sabedoria”… e que geralmente reclamam de tudo: do lixo na rua, da juventude perdida, dos valores que acabaram, do governo, da vida, do clima e, claro, da “falta de educação dos outros”. Pois bem. Lá estava o sábio. Na mão dele, uma garrafinha PET que — sejamos sinceros — tinha toda a estética suspeita de uma embalagem de cachaça. Ele dá o último gole do que provavelmente era a verdade líquida da noite anterior, rosqueia a tampinha com toda a destreza de quem ainda tem força moral par...

O sorriso que ninguém devolve

 Hoje precisei ir a uma consulta. Nada demais — só mais uma daquelas peregrinações onde o cansaço emocional chega antes da gente. Assim que cheguei, a urgência bateu: banheiro. Sempre aquela aventura antropológica de descobrir se o espaço é individual, coletivo, misto, interditado ou se vai me surpreender com algo pior que a própria consulta. Bati na porta. Abri. E lá estava uma senhora, saindo. Ela me olhou. Eu a olhei. E, por reflexo — talvez por teimosia — eu sorri. Sim, eu sorrio. Ainda tenho essa mania. Essa falha de fábrica, talvez. Esse defeito humano que insiste em acreditar que gentileza ainda conversa com alguém. Mas a senhora… Ah, a senhora me devolveu um olhar. Um olhar vazio, quase administrativo: “não tenho tempo para emoções, querida” . Nem um canto de boca levantado, nem um micro gesto, nada. Só aquele silêncio urbano que diz “não me envolva, eu só existo”. E eu ali, segurando meu sorriso como quem segura uma mala que ninguém ajudou a carregar. Às veze...

O Problema Não É o Mundo

O Problema Não É o Mundo — São as Pessoas Que Não se Leem Hoje acordei com aquela sensação clássica de que o mundo não está ruim… as pessoas é que andam funcionando no modo economia de consciência . Todo dia alguém dá um show de falta de noção na vida real, na internet ou na fila do mercado (especialidade nacional). E aí eu percebi: tem gente que não passa da superfície da própria existência. Não se questiona, não se analisa, não se confronta. Quer um spoiler? Quem não se lê, não evolui. Foi pensando nisso que lembrei de um livro que sempre me cutuca quando começo a perder a fé no comportamento humano: Livro indicado: O Óbvio que Ignoramos — Jacob Pétry Se você acha que já viu de tudo na vida, este livro aparece para esfregar na sua cara que não viu nada — porque vive ignorando justamente o que está na sua frente. Pétry desmonta comportamentos automáticos, questiona crenças que aceitamos sem pensar e, o melhor: faz você perceber que o problema muitas vezes é… você mesmo. Sutil...